domingo, 14 de junho de 2009

Roteiro da Lisboa Queirosiana

Lisboa de "Os Maias" que percorri, com as minhas filhas, conseguindo até voltar atrás no tempo...

Iniciámos o nosso percurso junto à estação do Rossio.




O Monumento aos Restauradores e a Avenida da Liberdade, na altura Passeio Público, surgem, no final da obra, como símbolo de uma Lisboa sem grande capacidade de renovação.

Saindo da Praça dos Restauradores, seguimos pela Rua 1º de Dezembro até encontrar a Rua do Carmo. Subindo a Rua do Carmo e virando à direita encontra-se a Rua Garrett.

Subindo a Rua Garrett encontra-se, na primeira rua à esquerda, a Rua Ivens. A Rua Ivens era a antiga Rua de S. Francisco (o nome da rua está ligado ao Convento de São Francisco fundado em 1217 e a área ocupada no período áureo era tão grande que se lhe chamava “a cidade de São Francisco”), onde se situa o Grémio Literário, no nº 37. Este era o local por excelência dos homens de cultura.

Na mesma artéria, algumas portas à frente, em direcção à Rua Capelo, antiga Travessa da Parreirinha, ficava o n.º 31, onde no 1º andar residia Maria Eduarda.

Regressando à Rua Garrett e continuando a subir em direcção ao Largo do Chiado, antigo Loreto, encontra-se, à direita, a Rua Serpa Pinto. Seguindo por esta rua encontramos o Largo Rafael Bordalo Pinheiro, outrora Largo da Abegoaria, onde Carlos da Maia espanca Eusebiozinho, por este andar metido na “maroteira da Corneta”.

Aqui situava-se o Casino, onde tiveram lugar as Conferências Democráticas. É ainda na Rua Serpa Pinto mas na direcção do rio que se encontra o Teatro de São Carlos, onde começaram os olhares da condessa de Gouvarinho a Carlos da Maia.

Atravessando a Rua da Trindade até à Rua Nova da Trindade, pode observar-se uma das entradas do Teatro da Trindade, onde decorreu o sarau literário de “Os Maias”. Na época, o Teatro da Trindade situa-se na Rua de S. Roque, actual Rua da Misericórdia.

Descendo a Rua Nova da Trindade chega-se também ao Largo do Chiado, onde se encontra a antiga Casa Havaneza, a melhor tabacaria da capital, tradicional importadora de cigarros, charutos, tabacos estrangeiros, em especial charutos de Havana. Aqui se reuniam os adeptos do romantismo, personalidades da burguesia e da política.

Saindo do Largo do Chiado e prosseguindo pela Rua António Maria Cardoso, encontra-se a Rua Victor Córdon, antiga Rua do Ferragial de Cima, onde se localizava, no nº 45, o Hotel Bragança (o edifício ainda existe...), frequentado por muitas personagens d’ Os Maias. O próprio Eça ali se reunia com os “vencidos da vida”. Era também nesta rua que residia o banqueiro Cohen.

Voltando à Rua António Maria Cardoso e passando, novamente, no Largo do Chiado, avançamos até à Praça Luís de Camões, ponto de encontro de quatro eixos que aí se cruzam: Rua Garrett, Rua do Loreto, Rua da Misericórdia e Rua do Alecrim, conhecida na época por Calçada do Alecrim.

Descendo a Rua do Alecrim, percurso frequentemente utilizado nas deslocações das personagens, encontra-se a Praça Duque da Terceira, cujo antigo nome era Praça dos Remolares.
Já na Praça Duque da Terceira, pode observar-se o edifício que outrora foi o Hotel Central, onde se deu a discussão entre Ega e Alencar, cada um defendendo o Naturalismo e o Romantismo, respectivamente. O Hotel Central foi o local escolhido para o jantar de homenagem ao banqueiro Cohen e foi neste jantar que Carlos viu Maria Eduarda, que se encontrava aqui alojada.

É da Praça Duque da Terceira que sai a Avenida 24 de Julho, outrora conhecida como o Aterro. Era pelo Aterro que Carlos da Maia fazia o percurso entre a Baixa e o Ramalhete.

Seguindo pela Avenida 24 de Julho, encontra-se, à direita, o Largo de Santos.
É do Largo de Santos que sai a Calçada Ribeiro Santos, citada como a Rampa de Santos.

É aqui que se passa a cena final, mostrando Carlos da Maia e João da Ega desiludidos com a estagnação de Portugal.
Continuando pela Calçada Ribeiro Santos, chega-se à Rua das Janelas Verdes.

No seguimento da Rua das Janelas Verdes, encontra-se a Rua Presidente Arriaga, antiga Rua de S. Francisco de Paula. Seria numa destas ruas ou na vizinhança delas que se situava o Ramalhete.
Aproveitar para observar bem alguns casarões e com as informações de que se dispõe tentar reconhecê-lo. Não é tarefa fácil.

Há quem afirme que Eça de Queiroz viveu aqui e se inspirou neste palacete para a composição de uma outra casa mágica, "O Ramalhete", a casa onde se inicia e desenrola parte do seu famoso romance "Os Maias".

Já no regresso, percorrer novamente a Avenida 24 de Julho até ao Cais do Sodré. Aí entra-se na Rua do Arsenal em direcção à Praça do Município, conhecida antigamente como Largo do Pelourinho.

Era aqui que se situava a hospedaria do Sr. Guimarães, onde estavam guardados os papéis que continham a verdadeira identidade de Maria Eduarda.

Terminámos aqui o nosso belo percurso cheio de simbolismo...


3 comentários:

Sofia disse...

Hoje tenho mesmo que deixar o meu comentário!! Como é bom mergulhar nas "imagens" dos Maias e sentir-me de novo a vivenciar uma Lisboa que nunca conheci mas com a qual me identifico tanto..Mais do que com a que temos hoje em dia!Obrigado por este momento queirosiano.

Pézinhos na Areia disse...

O progresso não é sinónimo de melhor qualidade de vida, antes pelo contrário...isto, claro está, na minha modesta opinião. Como não tenho possibilidade de viajar no presente, faço viagens ao passado e também aí consigo encontrar "pessoas" que de outra forma nunca teria oportunidade de conhecer...
Agora, por exemplo, imagino-me a ler "Os Maias" sentada numa poltrona do Hotel Central ou, sei lá, numa tertúlia animada no Grémio...
Julgo que os momentos queirosianos têm um efeito inebriante nas pessoas sensíveis e românticas...

Antonio Realinho disse...

só agora comecei a ler a obra e dou por mim a calcorrear lisboa em busca dos locais descritos na dita, para assim poder beber e saborear as vivências de outros tempos com os qais me identifico bastante. obrigado