sábado, 15 de julho de 2017

Livros e Mar: eis o meu elemento! (80)

Antes de Elena Ferrante se tornar um sucesso no panorama literário mundial, já a minha filha A. se tinha antecipado e recomendado insistente e entusiasticamente o primeiro volume da tetralogia.  A saber: A amiga Genial, História do Novo Nome, História de Quem Vai e de Quem Fica e História da Menina Perdida (a quem interessar, recomendo as sinopses da Relógio d’Água).
Elena Ferrante continua a ser um pseudónimo, pois a autora nunca aceitou revelar a sua identidade, embora muitos tentem, conjecturando, descobrir quem é realmente Ferrante, e se é mulher ou homem. Pessoalmente, é-me indiferente, não tenho curiosidade em olhar “pelo buraco da fechadura”, não tenho particular interesse pela vida da autora.  
Elena Ferrante terá dito, numa entrevista via mail para Il Corriere della Sera, “não me arrependo de meu anonimato. Descobrir a personalidade do escritor através das histórias que propõe, das suas personagens, dos objectos e paisagens que descreve, do tom da sua escrita, não é mais nem menos que um bom modo de ler”. Estou de acordo. O que ganho em saber se viveu na Grécia, se é casada, se tem filhos, se é tradutora ou se enriqueceu? Nada, o que me desperta interesse é a obra, o resto são suposições que não acrescentam mais-valia ao trabalho literário. Li há tempos uma frase que julgo oportuno mencionar: O autor morre quando põe o ponto final. O leitor nasce a seguir. Na muche! E como leitora desta tetralogia tenho uma palavra para a definir: obra-prima!
A tetralogia foca-se na vida de duas personagens, a narradora, Elena Greco (Lénu ou Lenuccia), e a sua amiga de infância, Raffaella Cerullo (Lina ou Lila), ambas nascidas, em 1944, num bairro pobre de Nápoles, e acompanha-as durante sessenta anos. No entanto, todas as outras personagens que as rodeiam, com as suas diferenças e semelhanças, são relevantes na narrativa e acabamos por nos envolver, numa intimidade fascinante, na vida destas famílias.

Italian women and children in Naples by George Rodger, 1944

Antes de nos levar para Nápoles do pós-guerra, Elena Ferrante inicia o primeiro volume da tetralogia com um prólogo sobre um acontecimento no tempo presente. Rino, filho de Raffaella Cerullo, telefona a Elena Greco informando-a que a sua mãe tinha desaparecido sem deixar rasto, levando roupas, sapatos, livros, fotos, documentos, enfim, tinha desaparecido com todo o seu passado . Elena sabia que esse era um antigo desejo de Lila, “queria volatizar-se; queria que todas as suas células desaparecessem; que dela não fosse possível encontrar nada”.
E como a conheço bem, ou pelo menos creio que conheço, tenho como certo que encontrou a maneira de não deixar em parte nenhuma deste mundo nem um cabelo. Lila está a exagerar, como é costume, pensei. Estava a dilatar excessivamente o conceito de rasto. Agora, aos sessenta e seis anos, não só queria desaparecer como também apagar toda a vida que deixara para trás. Senti‑me deveras irritada. Vamos ver quem vence, desta vez, disse para mim. Liguei o computador e comecei a escrever os pormenores da nossa história, tudo aquilo que me ficara na memória.
Foram as palavras finais do prólogo que despertaram a minha curiosidade. O que poderia ter acontecido anteriormente para Elena Greco querer impedir ardentemente a ambição da sua amiga de infância? A partir daqui fiquei viciada em Ferrante e cativada pela narrativa até à última página do quarto volume, pelo qual esperei ansiosamente. Numa escrita simples, mas intensa e cortante, a autora aborda e explora questões como a condição feminina numa sociedade patriarcal, a desigualdade entre homens e mulheres, o casamento, a maternidade, a sexualidade, a sobrevivência das classes desfavorecidas, a riqueza intelectual, os movimentos sindicalistas, as ideologias e radicalismos políticos, a Camorra, enfim, um leque magnífico e diversificado de temas em que as personagens se envolvem e me envolveram.
A leitura desta tetralogia foi um verdadeiro carrossel de emoções antagónicas e absorventes, difícil parar de ler e largar as personagens com as quais me identificava, diferenciava, indignava, zangava ou comovia. Fechei o quarto e último volume com tristeza, como se perdesse para sempre a intimidade que, ao longo da narrativa, me prendeu a Lénu e a Lila.  Fechei o quarto e último volume há um ano e meio e até hoje não consegui encontrar um livro que me atraia, ou por outra, nem tenho conseguido ler, o que me deixa muito apreensiva… Penso que nunca mais na vida vou ler nada tão bom, que não vou encontrar leitura superior a esta. Foi, sem dúvida, a leitura mais marcante da minha vida. Quanto a Elena Ferrante, a ilustre desconhecida, está num patamar único e, seja ela quem for, deixou-me a pensar com os meus botões: Caraças! Como é que ela conseguiu escrever estes livros tão fora de série? Bravo! Tiro-lhe o chapéu, indiscutivelmente magistral! 

Nota: o entusiasmo à volta da tetralogia foi de tal ordem que chegámos a fazer uma tertúlia familiar numa esplanada…

2 comentários:

A. disse...

Subscrevo! ;)

Também tenho andado sem vontade de ler e julgo que a "culpada" é Ferrante. Não creio que a autora venha a escrever algo tão bom como esta tetralogia, mas nunca se sabe!

Entretanto comecei a ler um livro que a R. me deu. Chama-se "O Mundo Ardente", de Siri Hustvedt. Pela originalidade já me começou a cativar... e um dos temas também está relacionado com a desigualdade entre homens e mulheres, neste caso no mundo artístico.

Deixo aqui uma passagem do livro: "Todo o trabalho intelectual e artístico tem mais sucesso na mente da multidão, quando a multidão sabe que, algures por detrás da grande obra, ou do grande embuste, se encontra uma pila e um par de tomates."

Pezinhos na Areia disse...

Olá, como adorei o excerto do livro ;) fui ler a sinopse e deixou-me curiosa, particularmente quando diz que O Mundo Ardente é um puzzle complexo e rigoroso, irónico e lúdico, que o leitor vai montando de capítulo em capítulo, decifrando pistas e mistérios.
Uau, pistas e mistérios no meio intelectual nova-iorquino? Explora a desigualdade de sexos? Interessa-me! Será que Siri Hustvedt pode fazer-me esquecer Ferrante?...Humm, não sei, hesito, mas quiçá...
De Siri Hustvedt li Verão Sem Homens e gostei bastante, mas, até hoje, Ferrante continua a ser a minha escritora de eleição!
Obrigada pelo comentário.