domingo, 13 de outubro de 2013

Livros e Mar: eis o meu elemento! (79)

Madrugada Suja não é uma obra baseada em factos reais, é pura ficção. No entanto, não posso dizer que qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência porque o autor nos mostra um retrato notável da sociedade portuguesa, pós 25 de Abril até aos dias de hoje. Chamar “os bois pelos nomes” é apanágio do autor e em Madrugada Suja não é diferente. Muitas das passagens são testemunhos exemplares do que, lamentavelmente, se passa no nosso país.
Nas primeiras páginas, um grupo de jovens estudantes alcoolizados passa todos os limites, os acontecimentos precipitam-se, e o que não devia passar de uma vulgar e divertida noite de copos transforma-se numa fatalidade. O que se passou nessa madrugada torna-se num pesadelo que irá perseguir os jovens, envolvidos no acontecimento, durante anos.
Através de uma narrativa alternada de três gerações, vamos conhecendo os protagonistas da história, habitantes de uma aldeia do interior alentejano que aos poucos vai ficando despovoada até ficar apenas um morador, o avô de Filipe. O jovem deixou a aldeia para se instalar no litoral alentejano e trabalhar numa autarquia local, como arquitecto. Por força do exercício das suas funções, Filipe vê-se perante um caso de corrupção que o leva a regressar ao passado, além de o conduzir pela promiscuidade dos políticos e manobras ilícitas dos autarcas, ao mesmo tempo que se questiona sobre os valores morais e a integridade.

[…] Fora a época dourada dos grandes dinheiros europeus, em que bastava apresentar um projecto e Bruxelas financiava. Os governos projectavam, construíam, mostravam, ganhavam eleições. A banca intermediava, comissionava, cobrava, prosperava. O PIB crescia, os imigrantes afluíam e não havia credores à vista: só os parvos desconfiavam de tanto “desenvolvimento”. […] […] Todos estavam endividados, mas felizes: o Estado, as autarquias, os cidadãos. […]

Extra análise do livro:
Agora, pagamos pelos erros cometidos e pelos que se continuam a cometer. Pagamos pelo dinheiro da UE que estes senhores desbarataram fraudulentamente, beneficiando algumas “máfias” e amigos, pagamos as subvenções escandalosas, os Institutos e Fundações ineficazes e inúteis, os custos com a Presidência da República e a Assembleia, as viaturas de luxo, os vencimentos dos políticos, os escabrosos financiamentos dos partidos políticos, enfim, pagamos os interesses pessoais de quem nos governa há anos passando por cima dos interesses do povo e do país, uma corja de manhosos e de aldrabões.
Como alguém disse, e eu subscrevo, só na Ditadura as Contas Nacionais estavam “certas ao tostão”…

madrugada-suja

No princípio, há uma madrugada suja: uma noite de álcool de estudantes que acaba num pesadelo que vai perseguir os seus protagonistas durante anos. Depois, há uma aldeia do interior alentejano que se vai despovoando aos poucos, até restar apenas um avô e um neto. Filipe, o neto, parte para o mundo sem esquecer a sua aldeia e tudo o que lá aprendeu. As circunstâncias do seu trabalho levam-no a tropeçar num caso de corrupção política, que vai da base até ao topo. Ele enreda-se na trama, ao mesmo tempo que esta se confunde com o seu passado esquecido. Intercaladamente, e através de várias vozes narrativas, seguimos o destino dessa aldeia e em simultâneo dos protagonistas daquela madrugada suja e daquela intriga política. Até que o final do dia e o raio verde venham pôr em ordem o caos aparente.

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