Tenho uma característica particular, mas não invulgar, que me leva a saltitar de blogue em blogue, esquecendo-me literalmente das horas. Sou terrivelmente coscuvilheira ou, dito de uma maneira menos desagradável e mais soft, sou excessivamente curiosa…
A minha bisbilhotice, perdão, o meu desejo de saber, conduz-me a muitos blogues com textos excelentes e material de muito boa qualidade e a blogues perfeitos e talentosos, mas também já tem acontecido ver goradas as minhas expectativas de coscuvilhice, melhor, de conhecimento, ao deparar com blogues de muito mau gosto (digo eu, claro…). Como dizia Platão, a sabedoria é um bem e a ignorância é um mal. Ou a minha bisbilhotice é exigente ou lamento dizer que há blogues muito maus (julgo que o meu não é bom nem é mau, é mais um…).
Pior do que dar de caras com blogues muito maus, carregados de bonecos e letrinhas coloridas a piscarem, é chegar a um blogue em que o criador mendiga, quase de joelhos, comentários aos seus textos. Poderia utilizar vários adjectivos para censurar esta pedinchice, mas a palavra certa parece-me ser execrável. Sei que os comentários criam algum entusiasmo, possibilitam uma interacção com os leitores e podem mesmo ajudar na auto-estima do autor, mas nada disto serve como atenuante para andar a esmolar e a suplicar por comentários. Do meu ponto de vista é simplesmente humilhante e fico envinagrada quando deparo com um blogger que desce tão baixo por uma coisa de lana-caprina. E aqueles que comentam e pedem para passar pelo blogue deles?! Caricato! Há também aquelas pessoas que são comentadoras furiosas. Comentam em todo o lado, comentam tudo, mas optando pelo estilo inútil, “made in Facebook”, Gosto, Não gosto. Dispensáveis! Sem inteligência e vazios. Detesto!
Li, algures na Net, que um blog sem comentários não tem razão de existir a não ser que seja por narcisismo de quem o escreve. A ser verdade, e atendendo a que eu tenho poucos comentários, logo, sou uma narcisista sem vergonha que gosto de ser leitora de mim mesma…
Afinal, porque é que eu criei um blogue? Já dissertei sobre isto no meu primeiro post e não vou tornar a fazê-lo, mas garanto que nada me demoverá de continuar a escrever, pesquisar provas e bases para os artigos e tentar evoluir na escrita. Teimosia? Burrice? Amor-próprio? Talvez… mas continuarei sempre a escrever (julgo que com clareza), sem me preocupar com o número de comentários, porque isso me dá um enorme prazer…
Apesar da baixa taxa de comentários, o número de visitantes/leitores parece-me perfeitamente razoável para um blogue despretensioso. Por essa razão, expresso a minha gratidão a todos os que por aqui passam, em especial aos lurkers, os leitores escondidos nas sombras…
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Narcisismos
quinta-feira, 12 de maio de 2011
Torre de Babel
quarta-feira, 11 de maio de 2011
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Memórias e Afectos (80)

As fotos, com mais de cinquenta anos, são um desfile de charme! Se não soubesse quem eram, diria que as modelos, encantadoras e elegantes, dignas de uma agência de top models, usavam criações de conceituados estilistas da época…
É com alguma melancolia que revejo as fotografias. Pais, avós, irmãos, tios, primos, padrinhos. Alguns já não se encontram entre nós, mas continuarão sempre vivos nestas imagens fixas, nestes pedaços de memória que sobrevivem para lá do tempo. Que pena não ter tido oportunidade de desfrutar deste encontro familiar, quando a família se entregou a uma mútua comunhão de afectos e sentimentos.
Claro que faltaram muitos parentes porque só o meu avô materno tinha onze irmãos e cada um deles teve muitos filhos, mas os familiares mais chegados estiveram reunidos nestas férias estivais, no final dos anos cinquenta.
Só em 1964 voltei a ver o meu tio R. e a família. Durante esta longa ausência, a minha tia A. e a minha mãe trocaram muita correspondência, sempre naqueles envelopes azulados, com uma cercadura listrada e colorida, e que tinham já inscrito as palavras “por avião, par avion e by air mail”. Os selos inconfundíveis...
Nesse ano, todas as recordações do meu tio R. são simplesmente deliciosas porque ele era uma pessoa extraordinária e um companheiro divertido, sempre com um ar travesso e bem-disposto.
Algumas das horas de deliciosa brincadeira devo-as ao tio R. e, claro, à minha tia A. porque me presenteavam sempre com um ou outro brinquedo que eu há muito desejava. As miniaturas de mobílias de sala e de quarto, para além de um frigorífico, foram alguns dos brinquedos que fizeram de mim, na altura, a menina mais feliz do planeta. Estejam onde estiverem, embora goste de imaginar que estão no tão falado paraíso, prometido a todos os mortais, gostaria que soubessem que lhes estou muito grata por me terem proporcionado momentos fantásticos e únicos.
Santarém era um lugar de devoção quando cá vinha. Tinha estudado nessa cidade, e vaguear pelas suas ruas, revisitando locais que lhe tinham sido caros, fazia-lhe bem à alma.
O local de culto que melhor recordo era o jardim das Portas do Sol, onde vivemos alguns momentos hilariantes e o meu tio R. rejuvenescia, deixando o olhar espraiar-se na planície ribatejana e contemplando o rio, caprichoso e inconstante, que preguiça a caminho da foz.
domingo, 8 de maio de 2011
sábado, 7 de maio de 2011
sexta-feira, 6 de maio de 2011
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Memórias e Afectos (79)
A 7 de Outubro de 1968, depois de mais umas belíssimas férias de Verão, entrei no 2º ano do liceu. A secção do Liceu Passos Manuel em Massamá continuou a ser palco das minhas brincadeiras e dos meus devaneios.
Por qualquer motivo, que já não recordo, o aluguer da camioneta, a superprotecção que nos foi “imposta” no 1º ano, deixou de existir e os trajectos de ida e volta passaram a ser por nossa conta. “Lançadas às feras”, o risco passou a ser a “nossa profissão” e, como sempre tem acontecido ao longo dos tempos, os filhos enfrentam com naturalidade o que os pais encaram com apreensão e ansiedade. As viagens de camioneta, eliminada a vigilância, passaram a ser feitas na Empresa de Viação Eduardo Jorge (integrada em 1976 na Rodoviária Nacional…snif, snif) e, de longe, muito mais divertidas.
Foto "roubada" aqui
Claro que a diversão não se estendia aos motoristas e picas, que eram forçados a suportar o regabofe que se instalava. Recordo, com um sorriso saudoso, a nossa maroteira de eleição. Todas as janelas tinham uma persiana móvel de napa que era cuidadosamente enrolada depois de atestada de bilhetes usados que apanhávamos no chão da camioneta. Depois da armadilha montada, bastava esperar que qualquer incauto puxasse a dita e levasse com os confetti em cima. Os risos abafados depressa passavam a risada geral. Uma brincadeira parva, mas não ofensiva. Talvez por isso, nunca tivemos uma reclamação…
Como só tínhamos aulas da parte da manhã (nesses tempos longínquos não existiam aquelas disciplinas que não servem nem para encher chouriços…), íamos almoçar a casa, à nossa ou à dos avós, e havia que correr para a paragem da camioneta, à beira da estrada e sem qualquer tipo de abrigo. À época, o meu irmão, que sempre teve uma queda natural para vendedor e saltava de emprego em emprego com uma facilidade que hoje em dia é impensável, passava, ocasionalmente, por ali e dava-me boleia. A mim e a quem estivesse na paragem e morasse para as nossas bandas. Não consigo lembrar-me se, nesse tempo, ele trabalhava na Papelaria Fernandes ou nas Páginas Amarelas, mas julgo que não erro se disser que ele tinha um carro encarnado, fácil de vislumbrar ao longe, e namorava com uma rapariga (que comprava a minha simpatia com caixas de bombons) que trabalhava numa loja da Singer em Queluz.
Obviamente que ter um irmão com carta de condução e carro dava um certo sainete e popularidade entre as colegas, coisas que fazem qualquer adolescente sentir-se o máximo. Felizmente, com o passar dos anos, causar sensação deixou de me atrair e comecei a gostar de passar incógnita em quase todas as circunstâncias da minha vida…
Há situações que, mesmo com o passar dos anos, continuam vivas na nossa memória. Uma dessas passagens da minha vida teve lugar numa aula de Português. Durante a análise de um texto, que manifestamente não me deveria interessar, eu planeava o intervalo, com a colega de trás, e tão embrenhada estava a maquinar a aventura que nos esperava que não dei conta da pergunta que a professora me fez. Quando me apercebi já era tarde! A repreensão foi imediata, seguida de uma nota no caderno que dizia textualmente o seguinte: a aluna não estava com atenção à aula, conversando e rindo com uma colega. Apesar de a pergunta me ter sido posta a mim, a minha colega levou a mesma anotação no caderno porque também estava desatenta. Aqui é que a porca torce o rabo… porque a professora queria que o encarregado de educação tomasse conhecimento e assinasse… O meu pai nunca foi uma fera, mas sentir-se-ia, certamente, descontente com a minha conduta, isto já para não falar do meu constrangimento. Ia ser muito mau! Escusado dizer que o intervalo, planeado com tanto esmero, foi angustiante, e tudo por “culpa” da professora que me interrogou na hora errada (claro que estou a ser irónica…). Tornou-se, assim, urgente, engendrar um subterfúgio para sair mais airosa da situação e a solução apresentou-se-me facílima. Eu diria que ela me tinha distraído e ela, por sua vez, diria que tinha sido eu, ou seja, aos olhos paternos ficaríamos menos mal vistas. Parte do problema estava resolvido, faltava apenas a encenação final!... Lembro-me de ter subido a escada, cabisbaixa e fazendo um esforço para que as lágrimas aflorassem. A minha mãe, preocupada (tadita…), perguntou-me o que me afligia e lá contei a patranha, antecipadamente traçada, com algumas fungadelas à mistura para dar o máximo de veracidade à coisa. Deu-me na cabeça, como convém que todos os pais façam nestas circunstâncias, e aguardei ansiosa que o meu pai (o ponto máximo do problema) chegasse. A tua filha tem aí um recado da professora para tu leres – disse a minha mãe quando o meu pai chegou. Humilhada, entreguei-lhe o caderno e apresentei a minha alegação final. O meu pai nunca me castigou, preferindo sempre a reprimenda que me ficava a martelar nos ouvidos, e, mais uma vez, o “sermão do Santo António aos peixes” foi infligido (hoje, por reconhecer que me fizeram uma pessoa de bem, emprego o mesmo método com as minhas filhas e não me tenho dado mal…). Nos dias que correm é inimaginável uma cena deste calibre, primeiro porque os professores já não enviam aos pais participações deste género, a não ser que os alunos sejam rotineiros nestas faltas, senão não faziam outra coisa, segundo porque os alunos já não receiam este tipo de advertências.
Já em 1969, depois de regressarmos da semana de férias do Carnaval (18 de Fevereiro), levámos com um forte abanão para espertar. Não estou a referir-me a nenhum acontecimento escolar, este abanão que menciono passou-se na madrugada do dia 28 de Fevereiro, uma sexta-feira. Sempre tive um sono profundo, o chamado sono dos justos, e nessa noite acordei estremunhada com um abanão. Era a minha mãe que me abanava ao mesmo tempo que, apavorada, gritava e pedia a intervenção divina…Arrastou-me para o quarto do meu irmão, que dormia a sono solto, e, sem dó nem piedade, abanou-o, enquanto continuava a sua súplica religiosa… O meu pai, desorientado, juntou-se a nós. Eram duas e tal da manhã e estávamos a “viver”, na hora, mais um acontecimento dos anos 60, o famigerado sismo de 1969. Não tenho ideia se foram segundos ou minutos, mas, para mim, a terra tremeu durante uma eternidade… Depois das preces da minha mãe terem, finalmente, chegado ao centro da Terra, a casa parou de estremecer.
Nas escadas do prédio começaram a aparecer os vizinhos tão alarmados quanto nós. Enquanto eles e os meus pais trocavam impressões sobre o tremor de terra, as prováveis réplicas e se não seria melhor ir para a rua, eu aproveitava o momento alto da noite, ou seja, ver os vizinhos em traje de noite…a sério, aquele desfile de pijamas e camisas de noite foi delirante. Como não houve consenso, uns ficaram em casa e outros foram para a rua ou para dentro do carro. O meu pai e o meu irmão ficaram em casa, mas a minha mãe e eu fomos para o carro dos vizinhos do 3º Esq. Às três da manhã parecia dia, imensa gente na rua e quase toda de pijaminha. Eu também estava de pijama, mas não saí de casa sem vestir o casaco de fazenda. Quando, por volta das quatro da manhã regressámos a casa, deitei-me com os meus pais e recordo-me muito bem de ainda sentir as réplicas… a minha mãe “fazia o favor” de não deixar passar nenhuma…
Quando voltei ao liceu na segunda-feira, continuava a não se falar de outra coisa, do tremor de terra de magnitude 7.3 na escala de Ritcher, do pânico da população, enfim, da noite em que a terra tremeu…
(imagens "roubadas" gentilmente na Net)
terça-feira, 3 de maio de 2011
Message in a bottle (48)
"Manter uma paz podre, coexistir com a incompetência e tratá-la com sorrisos é prejudicial", diz o autarca, que detectou 3000 documentos pendentes, há cerca de dois anos, e passou ao confronto, ameaçando com a demissão das chefias. "Os dirigentes que quiserem sair é um favor que nos prestam, até agradeço que aqueles cuja competência está posta à prova que desapareçam." Na semana passada, os chefes de departamento e de divisão foram avisados, por correio electrónico, que teriam de despachar meia centena de documentos por dia. "Mandem-me 50 por dia que eu trato [despacho] 50 por dia", disse Macário.
A ameaça de sanções, aparentemente, resultou para alguns funcionários. Ontem, foram enviados para o presidente 80 documentos, mas outros mantiveram o ritmo e não cederam às ameaças. "Na semana passada, deparei com quatro situações de escandalosa e manifesta incompetência - uma pessoa que vai quatro vezes à Loja do Cidadão para despachar uma certidão", exemplificou. Só entre 2008 e 2009, vindos do executivo anterior, presidido pelo socialista José Apolinário, disse, "havia 3000 documentos sem seguimento".
O autarca do PSD admite que um documento pode levar "semanas ou meses a despachar, mas nunca ficar anos sem resposta". Por isso, promete: "Abri quatro processos de inquérito e pelo vejo vou abrir mais estes dias - por manifesta falta de zelo, por irresponsabilidade."
Já quando foi autarca em Tavira, o social-democrata levantou mais de uma dezena de processos disciplinares, mas não conseguiu demitir ninguém: "A lei é corporativa e defende a incompetência." Na Câmara de Faro, em ano e meio de mandato, diz já ter detectado "uns 50 funcionários que não fazem mais nada do que receber o ordenado". O número de documentos despachados na Câmara de Faro, segundo o seu presidente, é de sete a oito por semana. Como havia 3000 em lista de espera, conclui que iria "levar mais de dez anos" para normalizar a situação. Passo seguinte: reuniu as chefias e "cara a cara" informou que queria a casa arrumada. "Achei que o assunto estava a ter proporções de falta de lealdade para comigo e tinha de ter consequências", declarou. A seguir, por email, deu instruções sobre como queria ver ultrapassada a questão. Um dos exemplos que aponta como exemplificativo do cúmulo da burocracia: um documento que deu entrada em Maio de 2008 "vai em 63 passos e ainda não está resolvido". O caso refere-se a obras particulares, com o direito de audição do munícipe, no núcleo histórico da cidade. "Isto é o cúmulo da irresponsabilidade da administração pública - uma máquina inoperante burocrática, com falta de mentalidade prática, que enrola sobre si própria."
Perante este quadro, Macário sustenta que "tem de haver alguém a dar uma pancada forte para despertar, e quem se portou mal tem de comer". Questionado sobre se não teme a contestação política, responde: "Tenho plena consciência disso, agora se não fizer nada, o regabofe continua". E para quem ache que não tem competência para decidir, afirma: "Deleguei as competências máximas, mesmo assim enrolam e não decidem."
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Memórias e Afectos (78)
Por lapso, na primeira parte destas memórias liceais, não fiz alusão a um acontecimento nefasto que levou o luto ao liceu, pouco tempo depois de termos iniciado o 1º período. Na noite de 25 para 26 de Novembro de 1967 choveu intensamente na região de Lisboa, principalmente nas zonas baixas da capital e nas zonas de Odivelas, Loures, Vila Franca de Xira e Alenquer. Nas cheias de 67 morreram centenas de pessoas, houve milhares de desalojados e prejuízos incalculáveis. Foi um caos. O regime, preocupado em abafar a extensão da tragédia, que denunciava explicitamente a miséria em que vivia uma grande parte da população da área de Lisboa, impediu, através da censura, que o povo tivesse noção da verdadeira realidade. Através dos jornais da época, podemos confirmar a marca evidente da censura que se empenhou na distorção do número de vítimas.
Foi nesta noite trágica que desmoronou um prédio em Queluz, situado junto aos arcos e rente à ribeira do Jamor. A estrutura foi levada pela corrente. Várias pessoas afogadas, entre elas, uma colega do liceu que vivia nesse edifício. Naquela noite, a enxurrada de lama levou consigo os sonhos de uma menina de onze anos. Foi angustiante continuar a passar diariamente por aquele local e ver um cenário de destruição, mas não havia alternativa, só havia aquele caminho. Ainda hoje são visíveis restos do prédio, obstinadamente agarrados ao prédio contíguo, como se, naquela noite, tivesse tentado que o outro lhe “deitasse a mão”… As cheias de 67 fizeram muitas vítimas, mas, na minha ainda tenra idade, o que me transtornou, o que me chocou sinceramente, o que me causou angústia e sonhos aflitivos, foi a morte estúpida, anormal e absurda da Cecília…
(continua)
(imagens roubadas “gentilmente” na Net)


















