segunda-feira, 7 de agosto de 2017

domingo, 6 de agosto de 2017

A melhor compota é a uvada...

(Por Miguel Esteves Cardoso, Jornal Público, 2012)


O melhor doce português de todos é uma compota feita só com fruta. Não leva um só grama de açúcar. É verdade que está quase 20 horas ao lume e que tem um ingrediente secreto, (uma fruta difícil de encontrar), pelo que não apetecerá fazer em casa.
É a uvada. Comê-la é voltar à meninice, ao prazer de enfiar um dedo desobediente numa tigela de marmelada recém-cozida e deixada ao sol a secar e trazer um pedacinho pegajoso para a boca. Sabe a antes de Afonso Henriques, a prazer antigo que o tempo deveria ter levado mas, por sorte, deixou.
A uvada que conheço é feita pelos Doces d"Arada, na Quinta Margem d"Arada, em Olhalvo, perto de Alenquer. Têm um bom site mas não consegui falar com eles através dos números que lá constam.
Quem me aconselhou a uvada foi o gastrónomo José Rocha Lopes, dono da Garrafeira São Pedro em Torres Vedras que conhece a senhora inspiradíssima que faz a uvada. É na garrafeira dele que se vende cada tigela a 5,40 euros. Não há maneira mais mágica de gastar uma nota de cinco euros e duas moedas de vinte cêntimos, garanto-vos.
A novidade da uvada é a antiguidade dela. É feita apenas com mosto de uvas. Ferve-se em fogo lento durante horas e horas até perder a água. Fica então o "arrobe" ao qual se acrescenta o tal ingrediente secreto. Há quem faça com maçã bravo de esmolfe mas não é esse o ingrediente secreto da Dona Celeste, esclareço já.
Só ela é que sabe fazer esta uvada e é escusado tentar fazê-la em casa. No site, espreite a cozinha moderníssima onde é feita e ficará logo desanimado. Felizmente, não se trata de uma senhora idosa a trabalhar numa pequena casa no coração de Trás-os-Montes que só faz uma vez por ano, por altura das vindimas, para os amigos.
Na uvada da Dona Celeste existe uma magnífica aliança de uma receita antiquíssima, eximiamente executada sem qualquer concessão, com uma pequena unidade de produção apoiada por uma conhecida companhia de vinhos.
Mosto, peros, lenha, tempo, sabedoria e paciência: são estes os únicos ingredientes. Nenhum dele foi inventado nos dois últimos milénios. Se leva muito tempo a fazer, também dura muito tempo. No site diz-se que a uvada "pode ter longa duração, sendo perfeitamente consumível ao fim de dois, três ou mais anos, altura em que pode ser fatiado ou cortado aos cubos".
A Maria João e eu rimo-nos sempre que lemos este parágrafo porque a mais longa duração que uma tigela de uvada atingiu entre nós foi cerca de duas horas. É deliciosa demais para guardar mais do que uma semana. Só depositando uma dúzia de tigelas num cofre pré-programado só para abrir em 2015 é que poderíamos provar os provavelmente espantosos cubinhos de uvada.
Aqui se vê em prática que o tempo, só por si, é um investimento. Uma receita dura milénios, leva um dia inteiro a fazer e, mesmo assim, num "ambiente arejado e seco", pode durar mais de três anos.
Os ingredientes da uvada estão todos ali ao pé da cozinha da Dona Celeste: as vinhas e as macieiras. Nem é preciso ir comprar um pacote de açúcar. É incrível. Até no meio de um pomar de marmeleiros se alguém quiser fazer marmelada tem de ir buscar açúcar.
Como se diz no site, a uvada "é um testemunho de uma economia frugal, de tempos em que as famílias viviam essencialmente do que produziam nas suas terras". O açúcar só existe há poucos séculos e até há pouco tempo o preço era exorbitante. A uvada é muito mais antiga do que o açúcar e, dadas as tendências do tempo presente, muito mais moderna.
As compotas portuguesas de produção artesanal são muito, muito boas. Não se esquecem certos doces de ginja ou de tomate, tal a profundidade do sabor que deixaram nas nossas bocas.
Mas também se deve celebrar a uvada e outros doces feitos só com os açúcares das nossas uvas - ou com mel. A uvada tem um sabor misterioso, apurado e inesperado. Basta uma colherada e fica-se acólito toda a vida. Toda a santa vida.

A que cheira a minha infância?

A razão que me levou a escrever este texto foi o perfil de uma professora polaca no Postcrossing. Pedia, a quem lhe escrevesse, que mencionasse os cheiros da infância. What smells like childhood for you?  Achei uma pergunta engraçada e, como tudo o que se relaciona com a minha infância me desperta interesse, enviei-lhe uma lista de cheiros que evocavam ternas lembranças. Ela gostou tanto que acabámos a trocar mensagens por haver cheiros da infância que partilhamos…
Há cheiros que nos transportam até à nossa infância e, por momentos, voltamos a ser crianças. E a que cheira a minha infância? A minha infância cheira a sabão azul e branco e roupa a corar ao sol; cheira a sopas de café com leite e uvada acabadinha de fazer (já aqui falei nisto); cheira a café de cevada e a leite em pó; cheira a maçãs Casanova perfumadas (e com bicho, sinal de que eram boas…) e a laranjas colhidas das árvores; cheira a glicínias e a resina e caruma de pinheiros; cheira a milho e cevada armazenados em grandes arcas; cheira a azeitonas esmagadas no lagar; cheira a porcos e galinhas; cheira a hortelã e a gente do campo; cheira a terra molhada depois de regar o quintal; cheira a velas e a petróleo dos candeeiros antigos; cheira a pó de giz e a madeira de soalho da sala de aula; cheira a maresia carregada de iodo nas manhãs de neblina; cheira a humidade e a fresco; cheira a colchões de palha; cheira a cânfora e a álcool que o meu avozinho R. usava nas ventosas de vidro para atenuar as dores musculares (técnica antiga, hoje conhecida por ventosa terapia); cheira a Vick VapoRub e a óleo de fígado de bacalhau; cheira a livros velhos; cheira à casa onde vivi, às casas dos meus tios e dos meus avós… enfim, cheiros que me trazem sensações de bem-estar, tranquilidade e conforto e me deixam saudades da minha inocência infantil…
Os psicólogos dizem que os “Fragrant Flashbacks” demonstram a íntima relação que existe entre a memória, o olfacto e a nossa infância.
Como disse Alice Vieira, “Há cheiros da infância que não morrem nunca, nem sequer envelhecem como a nossa pele”.

sábado, 5 de agosto de 2017

Uma noite de gargalhadas

Se acham que a vossa família é doida, vão chorar a rir com a família Bartolomeu...
Espectáculo sem paragens, completamente alucinante, muito, muito bom!


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Message in a bottle (80)

Isabel Alçada. As minhas férias grandes
JORNAL I 31/07/2017 


No tempo em que eu era criança, o final das aulas e a chegada do verão alteravam radicalmente a vida da minha família. Saíamos de Lisboa e instalávamo-nos - avós, pais, filhos, tios e primos – nas casas de férias. Julho e Agosto eram passados em zonas de praia, inicialmente em S. Martinho do Porto, onde alugávamos casa, depois dos meus cinco anos na Praia das Maçãs. No final de setembro havia ainda duas ou três semanas de férias de campo, numa quinta de família em Vale da Pinta, Cartaxo.  
As férias pareciam não ter fim. O ritmo era marcado primeiro pelas idas à praia ou à piscina pública da Praia da Maçãs, quase sempre só de manhã. Não dava para ir muito cedo porque naquelas paragens, onde o clima fresco tanto agradava aos homens da família, era frequente haver neblinas e a areia estar húmida, antes das 11 horas. Mas quer houvesse ou não houvesse Sol, lá partíamos, cada um com o seu rolo de toalha debaixo do braço, carregando sacos enormes onde se encaixavam baldes, pás, pregos, raquetes, bolas e barbatanas. Tínhamos a alegria diária de encontrar os primos e amigos na paragem do eléctrico, onde colocávamos a orelha no poste ou na linha, para calcular o tempo de espera.
- Já lá vem- gritávamos em coro- quando sentíamos a vibração - e logo que chegava tomávamos lugar, para uma viagem curta e deliciosa.
Na praia havia tempo para brincar, conversar, jogar, comer barquilhos, gelados ou pevides, e nunca faltavam os banhos, sempre sob a vigilância dos mais velhos, que nos ajudavam a conhecer as correntes e a furar as ondas daquele mar revolto e gelado,. No final das manhãs, regressávamos a casa para o almoço, sempre à mesa, a que se seguia a sesta do início da tarde, a que sem êxito tentávamos escapar.
Na piscina recebíamos lições de natação e preparávamo-nos para competições nos quatro estilos. Esforçávamo-nos por conseguir ganhar taças ou medalhas na prova final que se realizava todos os anos por finais de Agosto, e poder subir ao pódio, com enorme orgulho e a ilusão de ter atingido a mestria de verdadeiros desportistas perante o olhar aprovador de primos e amigos.
Em dias especiais, fazíamos piqueniques e passeávamos na serra de Sintra, onde visitávamos os palácios, o Castelo dos Mouros, Monserrate e tantos outros recantos misteriosos. À noite íamos por vezes a festas das aldeias mais próximas ou então ao cinema, montado numa tenda, de onde regressávamos a casa a coçarmo-nos com as picadas de pulga. 
No meu caso, tanto na praia, como no campo, as férias grandes eram acima de tudo a grande oportunidade de ler. Adorava histórias de príncipes, princesas, fadas e bruxas, mas também histórias de animais personificados, quase sempre começadas pela fórmula: No tempo em que os animais falavam.
Recordo com saudade os livros da coleção Manecas, que fizeram as delícias da minha geração. Era frequente deixar-me ficar no quarto, para lá da hora marcada para o final da sesta, a ler e reler as histórias que preferia, sem correr o risco de que alguém me viesse interromper. Uma das que li nessa época e nunca me cansou foi o Ladrão de Bagdad com a inesquecível magia do tapete voador. Ainda conservo A Casa de Vidro da coleção Pisca-Pisca, uma história em que a personagem principal é um menino dente-de-leão. Encantou-me a pontos de ter passado a seguir o voo dos pompons esvoaçantes, na vaga esperança de que pelo menos um deles ganhasse vida.


(estes são alguns dos meus livros da colecção Manecas, 
entre eles, O Ladrão de Bagdad de que fala a Isabel...)

O primeiro livro com capítulos que li de fio a pavio foi Os Desastres de Sofia da Condessa de Ségur que tinham recebido como prémio escolar. Li-o em francês, mas como me tornei fã da autora, comprei muitas das suas obras que se encontravam nas livrarias em tradução portuguesa. As Meninas Exemplares, As Férias, Memórias de um Burro tornaram-se livros de cabeceira. Foi também nas férias grandes que me entusiasmei com o Céu Aberto e o Em Pleno Azul, de Virgínia de Castro e Almeida. Proporcionaram-me as primeiras viagens a Itália e à Suíça. Comovi-me com o Pequeno Lord de Frances Hodgson Burnett e chorei sobre as páginas de Coração de Edmundo de Amicis e com as Mulherzinhas de Louise May Alcott. Um pouco mais tarde, talvez pelos onze, doze anos, aderi às biografias escritas expressamente para crianças, certamente muito bem, pois ainda me lembro de ter adorado ler um livro sobre a vida de Mozart e outro sobre a de Madame Curie, que se tornou para mim a maior das heroínas.


(estes são os meus livros de Virgínia Castro e Almeida...)

Gostei muito de ler este texto sobre as férias grandes da Isabel Alçada. Como refere, as férias grandes pareciam não ter fim e eram, de facto, a grande oportunidade de ler.
Como eu a compreendo Isabel...

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Almofada térmica...


Hoje está desagradável, tenho frio...
Lá diz o ditado: "primeiro de Agosto, primeiro de Inverno"

domingo, 30 de julho de 2017

Deus quer, a Mulher sonha, e a cozinha nasce…


Sinopse
Alma cozinha, pensa e escreve. E faz tudo isso com o auxílio dos temperos: ora caril, ora paixão, ora açafrão, ora emoção. A comida nasce do seu encontro com a vida, e os alimentos são as ferramentas que cozinham as suas conclusões. Ao abrir este livro encontrará receitas completas, saudáveis e alternativas, que poderão ser colocadas em prática. Para isso, apenas precisa deixar-se temperar pelas palavras, sentimentos e emoções que as descrevem. Conheça Alma e os seus temperos e, quem sabe, talvez a sua vida ganhe outro sabor, e a sua cozinha outro valor.


A pedido de uma amizade, comecei a ler Temperos com Alma. Confesso que iniciei a leitura com um certo cepticismo. A primeira frase da introdução, Se gosta de romance e de cozinha, encontrou o seu “prato” perfeito, não me pareceu um ingrediente estimulante nem apurou o meu desejo de continuar a ler. Primeiro, porque cozinhar é um verbo que não aprecio conjugar, particularmente na primeira pessoa do singular do presente do indicativo, “eu cozinho”. Segundo, porque a minha paciência para assuntos relacionados com a nutrição é quase zero. É a minha “intolerância alimentar”, caracterizada pela incapacidade de digerir determinadas normas alimentícias e dietas saudáveis. Esta incapacidade deve-se à falta de disciplina alimentar ao longo dos anos, padrões alimentares errados e ditados populares que nos foram embutidos desde tenra idade, como, por exemplo, o que sabe bem, ou faz mal ou é pecado; peixe não puxa carroça; morra Marta morra farta; o que não mata engorda; quem não presta para comer, não presta para trabalhar.
No entanto, como sei que a paciência é amarga, mas o seu fruto é doce, virei a página, convicta de que não me iria deixar convencer por conselhos alimentares, e mergulhei, qual casca de limão, na água morna que Alma tinha ao lume para fazer arroz doce… O movimento da colher de pau envolveu-me num turbilhão delirante de palavras mágicas, cozinhadas sabiamente em lume brando e, nesse instante, percebi que, afinal, o livro tinha miolo, melhor, parecia ter um recheio apaixonadamente cremoso de sabores, cheiros e sensações. Costumo pensar que o que é cerebral me fascina mas, na realidade, a minha verdadeira vida é a dos sentidos. Com esta ideia e a proeza do arroz doce, que me amaciou o espírito e aguçou o apetite, continuei a leitura.
Fiquei a saber que o ácido málico da maçã contribui para o bom funcionamento da vesícula e confirmei que esta namora às escondidas com o fígado. Já suspeitava disso, desde que a minha vesícula começou a andar “pedrada”. Pedras filosofais em “bebedeiras de azul”, só pode ser paixão… Revi-me na Cebola que depois de cozinhada fica doce, tal como eu fico mais apurada com o cozinhar do tempo; assemelho-me a um Pickle e sou tal e qual o Risoto, não gosto de esperar…
Nunca me tinha passado pela cabeça que um Assado de Legumes com Alecrim podia ser um baile ou que a amizade é como a Sopa da Abundância, mas, embebida nesta feitiçaria culinária, fui compreendendo que cozinhar é muito mais do que fazer comida, é criar arte e poesia, amor e fantasia. E, talvez porque uma folha de hortelã parece ter o dom de abrir um espaço na mente que nos transporta para outros lugares, imaginei-me a apreciar uma tela com o Empadão de Millet, num qualquer museu do mundo, ou a gargalhar com a Tarte de Cuscuz num número acrobático circense, aplaudida pelas equilibristas Sementes de Alfafa…
Como as palavras são como as cerejas, malabarista é também a autora, que, num jogo caleidoscópico de palavras, ligou de forma harmoniosa e suculenta os alimentos, os sentimentos e as emoções, personificando-os e aromatizando-os até estarem no ponto perfeito. Numa palavra, delicioso. Em duas, deliciosamente divinal!
Temperos com Alma é um eufemismo total. A ideia, para mim desagradável, de cozinhar, é aqui apresentada de uma forma suave e encantadora, salpicada de temperos e aromas. 
Fechei o livro, aliás, “selei-o”, para ele manter toda a sua suculência.   
Sei que a vida é como uma comida que não conhecemos, se não experimentarmos nunca saberemos o seu sabor! Sei que todo o burro come palha, o que é preciso é saber dar-lha, mas como o dizer e o fazer não comem à mesma mesa, não poderei afirmar que irei, resolutamente, alterar os meus hábitos alimentares depois da leitura deste livro, pois a probabilidade de falhar é grande e poria em risco a minha palavra. Não se trata de uma desconsideração, mas um contra-senso, que assumo, mas me ultrapassa, e um desacerto temporal com o meu tempo interior… Serei absolvida por ser esta a minha verdadeira essência? Há quem tempere com alma, eu realço o sabor da vida à minha maneira, de queda em queda, passo a passo, entre umas lágrimas de sal e umas risadas de picante, dissolvidas no dia-a-dia…
Temperos com Alma, um livro que se lê num fôlego, ou será que deveria dizer, numa garfada? 

sábado, 29 de julho de 2017

Postcrossing (50)



FR-597995 enviado pela Edyta.
A Edyta é polaca, mas vive na região da Alsácia, antiga região administrativa da França, localizada junto às fronteiras alemã e suíça. Hoje integra a região Grande Leste (Alsácia, Champanha, Ardenas e Lorena). A maior cidade é Estrasburgo.
As casas seguem o padrão de todas as casas na Alsácia, feitas no estilo enxaimel, uma técnica de construção com madeiras cruzadas entre si e argamassa colorida. Ainda que normalmente se faça uma ligação natural entre o enxaimel e a Alemanha, a verdade é que o estilo não possui uma origem propriamente determinada. Lindas!

Postcrossing (49)




FI-290783 enviado pela finlandesa Airi que vive em Muurame, cidade fundada em 1921.
A cidade está localizada entre dois lagos, o lago Päijänne e o lago Muuratjärvi. Estes dois lagos estão ligados entre si através do rio Muurame. Existem 37 lagos em Muurame e o rio Muurame atravessa o centro da cidade.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Manda saudades...

... que é coisa que cá não deixas!...



quinta-feira, 27 de julho de 2017

“Mantenham-se esquisitos”

A propósito do que disse aqui.

(excertos da entrevista de Ana França a Doug Lansky, no Observador)

Doug Lansky passou 10 anos "sólidos" a viajar. Escreveu milhares de artigos e dez livros sobre turismo, um setor que diz querer "salvar de si próprio". Num passeio por Lisboa deixou vários conselhos. Doug Lansky é um apaixonado pelas viagens e passou os últimos vinte anos a analisar de que forma o turismo em massa modifica as cidades.
A média de crescimento, a nível mundial, do número de turistas que visita um país situa-se atualmente nos 4%; em Portugal, a linha do gráfico dispara para os 13% e “não há nenhuma indústria que possa crescer sempre a esse nível e sobreviver sem que a bolha rebente”, diz Lansky. A bolha que rebentará primeiro em Lisboa, antes da imobiliária, diz, é a da “singularidade”. E o que é uma bolha de singularidade? “São os traços distintivos de cada cidade, que se perdem quando todos os bairros começam a ter cafés como os que há em Copenhaga, casas modernas de linhas retas como as de Estocolmo e restaurantes de tapas como os de Barcelona”.
Chegamos às ruas adjacentes à Rua Augusta, que reconhece da curta visita que fez antes, e diz: “Um dia o centro de Lisboa será igual ao centro de Londres, ao centro de Estocolmo, ao centro de Amesterdão, ao centro de Nova Iorque, porque estas multinacionais que por aqui vão despontando são iguais em todo o lado e a beleza ou a diversidade dos edifícios originais não vai chegar para distinguir estas ruas de outras em outras capitais igualmente antigas”.
Cada cidade tem o direito de fazer o que bem quiser para proteger os seus sítios históricos. Detestava ver estas ruas maravilhosas cheias de multinacionais e é assim que vai ser se não houver uma política de proteção, porque essas lojas têm muito dinheiro para pagar as rendas astronómicas que se pedem. Podemos dizer: ‘Este sítio é histórico, não teremos aqui multinacionais, simples’.
No Largo do Carmo, Lansky pergunta sobre o 25 de Abril, reconhece a praça de um livro. Há tuk-tuks e guias turísticos com grupos de jovens a contar a mesma história, com mais ou menos detalhes, que Lansky acabou de relatar segundo os livros que leu. Mas há também um grupo de rapazes jovens, com dezenas de garrafas de cerveja pousadas num dos bancos de pedra do Largo, onde eles já não se conseguem sentar por serem tantas. É a despedida de solteiro de um deles, entende-se pelas promessas rocambolescas que os amigos lhe fazem para a noite que se aproxima. Atrás da mesa que Lansky escolheu, de onde possa fotografar os jacarandás, estão mais quatro italianos, a cantar, ou a tentar cantar, êxitos de Pavarotti. Lansky pergunta: “Vocês não se cansam desta feira?”
Estamos aqui neste café ‘fofinho’, quantas pessoas é que é possível acomodar de forma sustentável? Muito poucas, até se tornar mais um café igual a dezenas, pressionado a mudar o menu para uma coisa mais saudável ou mais ‘brunch’ ou mais ‘internacional’. A razão para que as pessoas viajam, e eu não me canso de repetir isto, é porque querem ter uma experiência que não podem ter perto de casa. Eles querem alguma coisa diferente. Então o que é que fazemos? Damos-lhes as mesmas coisas que têm em casa, o conforto das marcas que conhecem, dos grelhados americanos, os sushis caríssimos, e todas essas coisas. Estas pessoas viajam à volta do mundo para aqui chegarem, gastam fortunas e saem do avião e ficam assim a olhar e pensam: “Hã? Isto é parecido com a minha cidade!”. O turismo não é uma start up. Estamos nisto a longo prazo. Nós queremos que estes sítios estejam aqui daqui a cem ou trezentos anos. Temos que olhar para isto da mesma forma que normalmente se olha para um parque natural, para uma reserva natural e temos que ser protecionistas.
A França não tem todas as melhores praias do mundo ou o melhor clima do mundo. O que eles têm é a identidade de se ser francês, a forma de vida. Eles têm aquela atitude um pouco protecionista da sua identidade e as pessoas vão lá para estar perto isso. E os portugueses têm que proteger o que é português. As pessoas deixam-se intoxicar pelo crescimento e só querem mais e mais, só que isso do crescimento infinito não existe. Há uma altura em que pára. Se as pessoas vêm cá para ver coisas que já não existem, vão deixar de vir. Receber bem as pessoas não é só aumentar o número de camas disponíveis. É dar alguma coisa diferente, é criar uma marca. Tem que existir uma história por trás da marca, todas as marcas mais inteligentes têm essa história. As cidades não devem perder as suas tradições, mesmo as mais estranhas. Mantenham-se esquisitos, é o meu primeiro e último conselho.

Será que o entrevistado disse "esquisitos" ou "exquisite"? Não me parece ser relevante. "Esquisito" significa fora do vulgar, raro. "Exquisite" significa encantador ou requintado. O conselho, seja para nos mantermos fora do vulgar ou encantadores, esse sim, é importante. Lisboa deveria manter a sua singularidade e o que sinto, ao passear pela capital, particularmente nas zonas turísticas, é que Lisboa perdeu personalidade e se banalizou...   

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Eu queria mesmo era estar...

... aqui, em Assos, Ilha de Kefalonia, Grécia


ou aqui, Dornes, Ferreira do Zêzere, Portugal
(sempre é mais perto...)



domingo, 23 de julho de 2017

Suspiros e saudades...

... de Lisboa desaparecida.
Saudades dos reclamos luminosos que, à noite, davam vida à cidade e a embelezavam. Estes, fazem parte das minhas memórias, pena que as minhas filhas só os possam admirar nestas fotografias. Eu, tive a sorte de poder maravilhar-me com as suas cores e luminosidade sem precisar de fazer uma viagem no tempo...  






(imagens cedidas gentilmente pela Biblioteca de Arte Gulbenkian e gentilmente roubadas por mim...)

Lisboa tinha outro encanto antes de se tornar uma das cidades mais "cool" da Europa. Lá estou eu com os meus sentimentalismos e a dar importância a costumes ultrapassados...

domingo, 16 de julho de 2017

Da literatura para a tela

A HBO e o canal de televisão italiano RAI uniram-se na produção da adaptação da tetralogia da escritora napolitana Elena Ferrante ao pequeno ecrã.
A primeira série de oito episódios será sobre o livro “A Amiga Genial” e está já a ser escrita por Francesco Piccolo, Laura Paolucci e Saverio Constanzo, contando igualmente com a colaboração da escritora, cuja identidade real não se conhece até hoje. Segundo Constanzo, a colaboração de Ferrante será fundamental na adaptação do livro à televisão pois pode revelar, «na primeira pessoa,  coisas que são muito íntimas, arriscadas, coisas que todos nós sentimos mas que temos receio de admitir». O realizador afirma ainda que irá realizar a série de TV como se de um grande filme de cinema se tratasse, dado o carácter cada vez mais cinematográfico das séries de TV atuais.
Como seria de esperar, a série será gravada em Itália com a produção da Wildside (que também produz a série “The Young Pope” para a HBO) e da Fandango. Prevê-se que as filmagens comecem já este Verão, com o lançamento previsto dos primeiros episódios da série para 2018. Os restantes livros da tetralogia, “História do Novo Nome”, “História de Quem Vai e de Quem Fica” e “História da Menina Perdida”, serão igualmente realizados por Constanzo, num total de 32 episódios.

Hurray!


O Postcrossing faz hoje 12 anos. 
Happy Postcrossingversary!

sábado, 15 de julho de 2017

Livros e Mar: eis o meu elemento! (80)

Antes de Elena Ferrante se tornar um sucesso no panorama literário mundial, já a minha filha A. se tinha antecipado e recomendado insistente e entusiasticamente o primeiro volume da tetralogia.  A saber: A amiga Genial, História do Novo Nome, História de Quem Vai e de Quem Fica e História da Menina Perdida (a quem interessar, recomendo as sinopses da Relógio d’Água).
Elena Ferrante continua a ser um pseudónimo, pois a autora nunca aceitou revelar a sua identidade, embora muitos tentem, conjecturando, descobrir quem é realmente Ferrante, e se é mulher ou homem. Pessoalmente, é-me indiferente, não tenho curiosidade em olhar “pelo buraco da fechadura”, não tenho particular interesse pela vida da autora.  
Elena Ferrante terá dito, numa entrevista via mail para Il Corriere della Sera, “não me arrependo de meu anonimato. Descobrir a personalidade do escritor através das histórias que propõe, das suas personagens, dos objectos e paisagens que descreve, do tom da sua escrita, não é mais nem menos que um bom modo de ler”. Estou de acordo. O que ganho em saber se viveu na Grécia, se é casada, se tem filhos, se é tradutora ou se enriqueceu? Nada, o que me desperta interesse é a obra, o resto são suposições que não acrescentam mais-valia ao trabalho literário. Li há tempos uma frase que julgo oportuno mencionar: O autor morre quando põe o ponto final. O leitor nasce a seguir. Na muche! E como leitora desta tetralogia tenho uma palavra para a definir: obra-prima!
A tetralogia foca-se na vida de duas personagens, a narradora, Elena Greco (Lénu ou Lenuccia), e a sua amiga de infância, Raffaella Cerullo (Lina ou Lila), ambas nascidas, em 1944, num bairro pobre de Nápoles, e acompanha-as durante sessenta anos. No entanto, todas as outras personagens que as rodeiam, com as suas diferenças e semelhanças, são relevantes na narrativa e acabamos por nos envolver, numa intimidade fascinante, na vida destas famílias.

Italian women and children in Naples by George Rodger, 1944

Antes de nos levar para Nápoles do pós-guerra, Elena Ferrante inicia o primeiro volume da tetralogia com um prólogo sobre um acontecimento no tempo presente. Rino, filho de Raffaella Cerullo, telefona a Elena Greco informando-a que a sua mãe tinha desaparecido sem deixar rasto, levando roupas, sapatos, livros, fotos, documentos, enfim, tinha desaparecido com todo o seu passado . Elena sabia que esse era um antigo desejo de Lila, “queria volatizar-se; queria que todas as suas células desaparecessem; que dela não fosse possível encontrar nada”.
E como a conheço bem, ou pelo menos creio que conheço, tenho como certo que encontrou a maneira de não deixar em parte nenhuma deste mundo nem um cabelo. Lila está a exagerar, como é costume, pensei. Estava a dilatar excessivamente o conceito de rasto. Agora, aos sessenta e seis anos, não só queria desaparecer como também apagar toda a vida que deixara para trás. Senti‑me deveras irritada. Vamos ver quem vence, desta vez, disse para mim. Liguei o computador e comecei a escrever os pormenores da nossa história, tudo aquilo que me ficara na memória.
Foram as palavras finais do prólogo que despertaram a minha curiosidade. O que poderia ter acontecido anteriormente para Elena Greco querer impedir ardentemente a ambição da sua amiga de infância? A partir daqui fiquei viciada em Ferrante e cativada pela narrativa até à última página do quarto volume, pelo qual esperei ansiosamente. Numa escrita simples, mas intensa e cortante, a autora aborda e explora questões como a condição feminina numa sociedade patriarcal, a desigualdade entre homens e mulheres, o casamento, a maternidade, a sexualidade, a sobrevivência das classes desfavorecidas, a riqueza intelectual, os movimentos sindicalistas, as ideologias e radicalismos políticos, a Camorra, enfim, um leque magnífico e diversificado de temas em que as personagens se envolvem e me envolveram.
A leitura desta tetralogia foi um verdadeiro carrossel de emoções antagónicas e absorventes, difícil parar de ler e largar as personagens com as quais me identificava, diferenciava, indignava, zangava ou comovia. Fechei o quarto e último volume com tristeza, como se perdesse para sempre a intimidade que, ao longo da narrativa, me prendeu a Lénu e a Lila.  Fechei o quarto e último volume há um ano e meio e até hoje não consegui encontrar um livro que me atraia, ou por outra, nem tenho conseguido ler, o que me deixa muito apreensiva… Penso que nunca mais na vida vou ler nada tão bom, que não vou encontrar leitura superior a esta. Foi, sem dúvida, a leitura mais marcante da minha vida. Quanto a Elena Ferrante, a ilustre desconhecida, está num patamar único e, seja ela quem for, deixou-me a pensar com os meus botões: Caraças! Como é que ela conseguiu escrever estes livros tão fora de série? Bravo! Tiro-lhe o chapéu, indiscutivelmente magistral! 

Nota: o entusiasmo à volta da tetralogia foi de tal ordem que chegámos a fazer uma tertúlia familiar numa esplanada…

Nasci para ler...