domingo, 31 de janeiro de 2010
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Gata Borralheira
Nessa época, o mais importante era o facto de ela conseguir livrar-se da maldade da madrasta e das filhas desta e, evidentemente, casar com o príncipe…
Hoje em dia, a versão que sempre conheci da história, um misto de Perrault e Disney, já não me perturba pela malvadez nem me regozija pelo final feliz. Na realidade, hoje em dia, este conto infantil revela-me as passagens realmente marcantes e qual a personagem mais relevante.
Presentemente, os factos mais tirânicos são aqueles em que a desditosa Gata tem que cozinhar, lavar a roupa, costurar, esfregar o chão ou ir buscar água ao poço…e, à noite, depois de um dia extenuante de trabalho não ter uma cama decente para descansar, vendo-se obrigada a dormir junto ao borralho…
No que diz respeito às personagens, eu diria que a Fada madrinha é indispensável.
Muito triste, Cinderela ficou à janela, olhando para o castelo na colina. Chorou, chorou e rezou. Das suas orações e lágrimas, surgiu a sua Fada madrinha que a confortou e usou a sua varinha de condão para criar um lindo vestido e sapatos de cristal, fazendo também surgir uma linda carruagem…
Caso estivesse na pele da Cinderela, dispensaria mais depressa o príncipe do que a Fada madrinha. Primeiro, porque sem o seu auxílio nunca teria conhecido l'homme de sa vie (não confundir com homem ideal) e por conseguinte deixar de ser empregada doméstica… Em segundo lugar, porque a partir de uma abóbora faz aparecer uma linda carruagem, um meio de transporte tipo o táxi dos nossos dias, sem ter que recorrer aos transportes públicos… Por fim, e com isto fico completamente exasperada, a preciosa ajuda da Fada madrinha, poupa-a nas enfadonhas compras de roupas e sapatos, evitando também despesas desnecessárias…
Eu também quero uma Fada madrinha!
Coisas do arco-da-velha... (4)
Passou-se com o irmão da minha colega J., quando ele trabalhava na Tuper (uma empresa de animação turística e desporto aventura) e se deslocou a uma firma para reunir com um dos responsáveis desta.
Luís Lucas – Boa tarde, venho para uma reunião com o Sr. X
Recepcionista – Boa tarde, quem devo anunciar?
Luís Lucas – Luís Lucas da Tuper
Recepcionista (já ao telefone) – Está aqui o Sr. Luís Tuka da Puka para a reunião…
Esta dislexia verbal da recepcionista levou a que os irmãos passassem a ser conhecidos por Tuka da Puka…
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Memórias e Afectos (44)

Fico à espera do parecer da R...
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
125 anos de criatividade
Talvez o faça lá mais para a Primavera.
Enquanto isso não acontece, deleito-me aqui.
sábado, 23 de janeiro de 2010
Vazio
Faz hoje um mês que te perdi. Que saudades…
As imagens do último dia e das poucas palavras que trocámos continuam muito presentes, sempre a voltarem-me à cabeça e a corroerem-me a alma…
Quem me dera poder trazer-te de volta para que o final, mesmo não sendo diferente, pudesse ser menos penoso. Nunca saberei o que pensavas sobre o lar, nunca saberei se definhaste de tristeza e desgosto. Continuo atormentada pela culpa.
Sinto falta da tua presença, do teu olhar, das tuas mãos, da tua voz, até da tua surdez…
Daria tudo para poder segurar, novamente, a tua mão e ter oportunidade de dizer que te amo muito. A dor até pode diminuir mas a saudade aumenta…
Apesar de a minha vida decorrer da forma habitual, a verdade é que tudo mudou. Eu já não sou a mesma pessoa que era, falta-me uma parta da minha identidade, as raízes, outrora profundas, são agora mais frágeis e mais superficiais…
Memórias e Afectos (43)
Mais alguns dos livros que guardo com carinho.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Inquietações
…
E Hans compreendeu que, como todas as vidas, a sua vida não seria mais a sua própria vida, a que nele estava impaciente e latente, mas um misto de encontro e desencontro, de desejo cumprido e desejo fracassado, embora, em rigor, tudo fosse possível. E compreendeu que as suas grandes vitórias seriam as que não tinha desejado e que, por isso, nem sequer seriam vitórias.
…
De súbito, Hans não reconhecia o tempo. Como alguém que distraído deixa passar a hora em que devia comparecer em determinado jardim e se espanta que seja já tão tarde, assim agora ele se espantava como se não tivesse à passagem reconhecido os dias e, por descuido, tivesse deixado passar os anos sem comparecer à sua própria vida. E não sabia bem como tanto se atrasara, encalhado em hábitos, afazeres e demoras…
Sophia de Mello Breyner Andresen
Saga - Histórias da Terra e do Mar
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
domingo, 17 de janeiro de 2010
Amizade vista ao Raio X...
Foi por um feliz acaso que a M. entrou na minha vida, ela e a família…que passei a considerar como minha. Hoje em dia é difícil encontrar pessoas verdadeiras, mas esta é uma família de pessoas genuínas, que se entregam sem pedir nada em troca, que compreendem o valor da amizade e sei que estarão sempre, incondicionalmente, do meu lado.
Felizmente, no meu caminho, vão aparecendo pessoas singulares como estas, pessoas que merecem elogios, que merecem amor, que merecem carinho, enfim, que merecem ser muito felizes porque só pelo simples facto de existirem dão mais sentido à minha vida, ao mesmo tempo que dão tranquilidade e mais cor ao mundo…
M, estarei inteiramente do teu lado, compartilhando os teus momentos de alegria e melancolia. É comum dizer-se que tudo muda… mas os afectos ficam para sempre assim como os amigos, porque a verdadeira amizade é um sentimento que permanece para lá da distância e do tempo…
Porque é dia do teu aniversário, deixo aqui o refrão de uma canção que fala de amigos e de amizade. Obrigatório ouvir!… E cantar…
Keep smiling keep shining
Knowing you can always count on me for sure
That's what friends are for
For good times and bad times
I'll be on your side forever more
That's what friends are for
(That's What Friends Are For - Dionne Warwick)
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Memórias e Afectos (42)

Lembro-me muito bem deles…em cima das peanhas.
Uma vez, quando regressávamos de Caldas da Rainha, o meu pai foi mandado parar, junto a um antigo cruzamento que existia junto aos bombeiros da Encarnação.
Estava em primeira fila e quando o sinaleiro o mandou avançar…Oops! Ficou com o pedal da embraiagem preso… já não saiu dali… e o polícia, com um ar consternado, dizia “se eu soubesse não o tinha mandado parar…”
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
O Hotel ideal para cada signo do zodíaco…
Inquieto e enérgico, o Carneiro precisa de novidade e acção. Assim, para o Carneiro, o Hotels.com sugere um hotel de cinco estrelas no Egipto, com acesso a desportos aquáticos, jogos de bola como o ténis e aulas de aeróbica e yoga, porque, sustenta a organização, os nativos de Carneiro se sentirão “mais confortáveis num hotel de desporto”.
Para aqueles cujo signo é Touro é sugerida uma estadia romântica em Capri, na Itália, num hotel 300 metros acima do mar, com vista panorâmica “de cortar a respiração” sobre a ilha, porque "os nativos de Touro precisam de muito romance e tempo para relaxar". Para o Touro dar largas ao seu romantismo, quem sabe num jantar no terraço a saborear um copo de Chianti.
A Tunísia é o destino sugerido para os comunicativos Gémeos, que “apreciam a sociedade e adoram lidar com outras pessoas”. No hotel sugerido, em Djerba, o Hotels.com promete alternativas de lazer como dançar no clube nocturno do hotel ou jogar bilhar e sociabilizar com os outros hóspedes.
Para os Caranguejo é sugerido um programa de paz, num hotel algarvio com apenas 15 quartos, porque este signo se sente “particularmente bem em ambientes calmos e reservados”. Um passeio pelos laranjais ou uma sauna ao final do dia garantem-lhe a familiaridade e segurança que aprecia, mesmo fora de casa.
Aos Leões, porque “adoram o luxo e estar no meio dele”, o Hotels.com sugere um resort no Dubai. O luxo e a atmosfera exclusiva, os passeios pela paisagem exótica, uma visita aos reprodutores de falcões, um curso de arco e flecha vão fazer-lhe o coração bater como gosta: depressa.
Para o signo Virgem o site sugere “um relaxamento holístico”, em Tóquio, no Japão. Organizado e exigente precisa de estruturas claras que o tranquilizem. O hotel, com fachada futurista, localizado no centro da metrópole é o lugar que lhe convém. Aqui, sentir-se-á rei no seu reino, rodeado de simplicidade, estilo e com a certeza de ter tudo ao alcance da mão.
Aos nativos de Balança sugere-se “descanso e relaxamento” já que valorizam o equilíbrio entre o corpo e a alma. Um hotel SPA, nas Maldivas, é definitivamente a escolha correcta. Pode dedicar-se às coisas boas da vida e mimar-se com uma massagem num dos vários centros de 1.ª classe.
Segundo o Hotels.com, os nativos de Escorpião “são mais individualistas e ciosos de desafios”, pelo que o alojamento em Maputo, Moçambique, será o ponto de partida para um safari, rafting ou experiências múltiplas no Parque Nacional Kruger, na África do Sul, entre girafas, gazelas e gnus.
Ao Sagitário, aventureiro e com grande vontade de liberdade, sugere-se uma estadia perto do Parque Nacional Grand Canyon, no Arizona, Estados Unidos, com visitas guiadas em voos privados de helicóptero sobre os gigantes Canyons e outros ícones históricos.
Para o Capricórnio, que não gosta de obstáculos e aspira a não ter limites, um hotel na Suíça a 100 metros da montanha dos Alpes e a 200 metros da margem do Lago Lugano, é o cenário exacto. Ali pode respirar ar fresco e encher-se da mesma grandeza com que se identifica.
Os nativos de Aquário, diz o site, possuem uma imaginação fulgurante e são magicamente atraídos pelas coisas bizarras e extraordinárias. A sugestão, por isso, é um hotel de design em Madrid, iluminado por uma fachada fantástica e quartos que são quase uma obra de arte e um estímulo à criatividade do Aquário.
(Diário de Notícias e Destak)
Message in a bottle (24)
A ideia é criar uma espécie de tabela de pontuação de ofensas, que pode levar as pessoas a perderem a sua residência. Atingido o limite de 20 pontos em dois anos, o cidadão será despejado, caso a sua habitação tenha sido oferecida pela autarquia.
O objectivo do governo local é «construir um ambiente comunitário higiénico, seguro e harmonioso» para os seus cidadãos, acrescenta o site da BBC. Recorde-se que a cidade chinesa de Guangzhou será a sede dos Jogos Asiáticos, em Novembro deste ano.
(Destak)
Então, só as pessoas que têm casas atribuídas pela autarquia é que vão ser punidas!? Ok, devem ser “paletes”… porque até existe um departamento que administra as casas do governo. Em todo o caso parece-me injusto e alguns chineses já criticaram o plano, em fóruns realizados na internet, afirmando que ele representa “discriminação contra os pobres”.
Nós por cá… não tínhamos mãos a medir, era preciso paciência de chinês! Sim, porque carros mal estacionados são às resmas…e português que se preze não dispensa cuspidelas no chão…
Autarquias portuguesas… apliquem a ideia!
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Memórias e Afectos (41)
Guardo, com bastante apego e ternura, livros da minha adolescência.
Livros que, um dia, irão directamente para o ecoponto azul, sem passarem pela “partida”…
Os livros têm a sua época e o seu tempo e, na realidade, as minhas escolhas literárias, na juventude, estão completamente ultrapassadas e antiquadas… pura e simplesmente já não encaixam na mentalidade dos jovens leitores de hoje.


Os meus livritos, guardados devotamente, estão tão desajustados na actualidade como muitos dos livros que, religiosamente, o meu pai foi armazenando e que descansam, há anos, nas estantes do escritório...
domingo, 10 de janeiro de 2010
Memórias e Afectos (40)
Depois de uns copos de sangria... ó F., bebes uma Marina a meias?
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Fujam!!!...
Censuro-me por não ter tido o discernimento necessário, há uns anos atrás, para me ter pirado daqui para fora, mas também não houve uma única alminha que me tenha incentivado a ir-me embora. Agora, para mim, é tarde… mas as minhas filhas, assim como outros jovens, têm oportunidade de basar daqui e quanto mais depressa melhor... caso contrário, irão transformar-se em adultos inconformados (como eu…) e, mais tarde, em velhinhos amargos, tristes ou resignados…
Fujam daqui para fora!...
A velhice, no nosso país, é uma “doença” que causa preocupação, a velhice no nosso país é uma merda… (salvo algumas excepções, claro está). A grande maioria dos idosos vive (?) entregue a si própria e em condições económicas precárias, outros, apesar de financeiramente menos limitados, não vivem desafogadamente. Muitos carecem de cuidados e apoio, por vezes permanentes, e as soluções encontradas, para além de nem sempre serem as melhores, não são, muitas vezes, viáveis, devido a vários factores. Tive ocasião de viver, recentemente, uma experiência com um final trágico. A doença do meu pai, agravada pela idade já avançada, levou-nos a enfrentar muitos problemas: o sistema de saúde deficiente, a rede de cuidados continuados foi sempre uma miragem inalcançável, o apoio domiciliário que conseguimos, para o manter em casa, pecou por ser insuficiente, a santa casa da misericórdia revelou-se e de “santa” tem muito pouco e acabámos encalhados na burocracia da segurança social. Restou-nos (porque o desgaste para a minha mãe era enorme) procurar um lar de idosos que recebesse acamados e aqui, mais uma vez, tropeçámos em algumas dificuldades, sendo a principal, o montante pedido em todos eles versus o valor mensal da reforma do meu pai. Existe muita oferta, mas a verdade é que a maioria deles é incomportável, tendo em conta as pensões que os nossos idosos auferem. Escolhemos o lar, que julgámos ser o melhor, dentro das possibilidades, e pagámos dez dias do mês de Dezembro de 2009 e o mês de Janeiro de 2010, ou seja, mil e trezentos euros. Infelizmente, o meu pai faleceu ao fim de três dias no lar… Fomos informados que nos iriam restituir grande parte do dinheiro entregue, mas agora dizem que só podem restituir quinhentos euros… Oitocentos euros por três dias??... Qual é a justificação? Este tipo de pessoas causa-me asco. Neste país, até os velhinhos servem de motivo para a ladroagem que por aqui alastra. Ponham a mão na consciência… Cada vez mais, este país funciona como um reles vão de escada…atulhado de aldrabões, oportunistas, gatunos e parasitas…
Fujam daqui para fora!...
Os portugueses são, e continuam a ser, um povo emigrante. Porquê? Porque o nosso país é um grande problema de gestão, imperfeito e defeituoso. No entanto, a tendência para ir embora é suplantada pela vontade de regressar a Portugal. Como diz Gonçalo Cadilhe, imaginam um português a mudar de país, dentro da UE, duas ou três vezes na vida?... Uns anitos na Escócia, uma década na Polónia, a reforma na Grécia? E a casa dos avós? E o adro da infância? E o jazigo de família?
Esqueçam essa carga emotiva das raízes! Ponham-se a andar daqui para fora!...
O que Portugal tem de bom é…é…ah, sim, é o clima (que não é exclusivamente nosso), e o “resto é paisagem” (linda mas muito mal frequentada…) e, somente agora, que a genica já vai começando a faltar, compreendo, que isso, por si só, não compensa…
Sempre me julguei incapaz de viver sem Sol, num país cinzento e frio. Actualmente estaria disposta a trocar um pouco desse Sol por melhor qualidade de vida e uma assistência digna na velhice, coisa que aqui não terei nunca…
As minhas filhas sabem o que devem fazer. Devem ir-se embora e quanto antes, melhor!
Fujam! Depois não digam que eu não as avisei…
Fujam! Caso contrário, irão transformar-se em adultos inconformados (como eu…) e, mais tarde, em velhinhos amargos, tristes ou resignados…
Fujam! Os velhotes que paguem a crise…
Leiam! Eu mordi-me de inveja!
As praias aqui são boas, mas não tão grandes e de areia tão boa como as portuguesas. Há alguns aspectos que me agradam bastante; a maioria dos dinamarqueses vai para a praia por volta das 7 da tarde, que é também a hora que prefiro, mas mesmo assim nunca há muita gente; não há problemas de estacionamento, não há barracas de bifanas e a construção nas zonas de praia é ordenada e muito bem arranjada. A envolvente é bonita e agradável.
Todos os dias são andados 1,2 milhões de quilómetros de bicicleta em Copenhaga. É o equivalente a dar 30 voltas à Terra! Um valor impressionante, repetido todos os dias. É que 37% da população da grande Copenhaga prefere a bicicleta como meio de transporte para o trabalho, para a escola ou a caminho do lazer. Mas ainda não chega. Políticos e instituições procuram elevar esse valor para 50% e começam por dar o exemplo; o presidente da câmara de Copenhaga e o equivalente ao ministro do ambiente de cá, vão diariamente de bicicleta, de suas casas para o emprego e volta. Constantemente estão a melhorar as condições para utilizar a bicicleta dentro e nos acessos à cidade. Apesar dos já existentes 350 km de vias próprias para bicicletas na cidade, estão a ser construídos mais e a ser melhorados os já existentes. Por exemplo, foram recentemente criadas as “vias verdes” para bicicletas. Trata-se de um tipo especial de pistas, devidamente assinaladas, que atravessam as principais zonas de acesso ao centro da cidade e ao longo das quais os semáforos estão sincronizados em favor das bicicletas, isto é, se se percorrer uma dessas pistas a uma velocidade constante de 20 km/h, é possível atravessar a cidade de um lado ao outro sem nunca pôr um pé no chão!
Chegou o Outono. As árvores ficaram amarelas, vermelhas e castanhas, em cores vivas, recortadas com detalhe contra um céu azul tão claro e limpo. “É o tempo das grandes caminhadas a pé” dizia-me o Kristian, tenor de um dos coros com que trabalho. E assim é, o tempo convida a sair e as cores convidam a olhar. Apetece absorver cada detalhe desta Natureza efémera, enquanto dura, deste lado frio, ainda púbere, do ano que em breve começará a envelhecer!
Mas não temos perdido tempo. Aproveitamos bem. Mudámo-nos no dia 1 de Outubro para outro apartamento. Fazia parte do nosso plano esta mudança; primeiro três meses num apartamento mais pequeno, todo equipado e perto do centro da cidade, enquanto procurávamos um maior, vazio (para poder receber as nossas coisas que chegariam entretanto de Portugal), e num local que fosse agradável, sereno, com boas escolas e infantários nas imediações, bons transportes e abastecimento e, já agora, bonito. Acabámos por encontrar uma zona que reunia estas condições e alugámos um apartamento que, até ver, nos está a agradar bastante. Estamos agora a viver em Charlottenlund (não longe de onde estávamos antes), rodeados de bosques e parques formidáveis, a 2 minutos a pé da estação de comboios (15 minutos de comboio até ao centro de Copenhaga ou 40 minutos de bicicleta), a 5 minutos de bicicleta do mar e a 5 minutos a pé de um bosque, para um lado e uns 10 minutos de um enorme parque, para o outro. Todas as fotografias deste número das Histórias da Dinamarca foram tiradas num dos muitos passeios que temos dado, neste caso ao tal bosque que fica aqui tão perto de casa. Temos lá ido penso que dia sim, dia não. Outro dia fui lá com a Madalena depois de jantar. Já era de noite e eu propus ir descobrir ”minimeus”. Mal entrámos no bosque, viam-se ainda as luzes da rua, disse-me ela - Pai, eu não estou a gostar nada disto! Achas que ainda sabes o caminho para casa? Quinze minutos depois já estava na caminha dela, quentinha a fazer ó-ó e, quem sabe, a encontrar os “minimeus” que nunca chegámos a descobrir naquele bosque fantástico!
Posso dizer que o tempo que temos encontrado é muito mais agradável do que esperávamos, mas não me deixa particularmente descansado observar como os Dinamarqueses parecem tentar agarrar, aproveitar, quase aforrar, cada instante de tempo bom, como se estivesse para se acabar… será?
Quando no primeiro dia de aulas se viu numa sala onde não compreendia uma palavra do que lhe era dito pela professora ou pelos colegas, a Leonor desatou a chorar. Por dentro nós também chorámos! Mas, em conjunto com a professora, tudo se resolveu rapidamente e no final da primeira manhã a Leonor estava satisfeita e orgulhosa com a sua nova experiência.
Desde o princípio a nossa despesa com a actividade escolar da Leonor foi zero, nada, nem um øre! Livros, material escolar e até um serviço de táxi que leva e trás a Leonor todos os dias (sim, um táxi só para ela que a vem buscar e trazer à porta de casa), tudo nos têm disponibilizado sem sequer o pedirmos. Os livros e material escolar são habitualmente fornecidos. O táxi é disponibilizado porque a Leonor tem estado a frequentar uma turma de alunos estrangeiros, que só existe em escolas que ficam um pouco mais longe de nossa casa do que aquilo que está previsto. A partir da próxima semana a Leonor vai passar a frequentar uma turma normal, com alunos dinamarqueses, na Ordrup Skole, a escola mais próxima de nossa casa. Irá e virá de bicicleta (que já domina) na companhia de um de nós. São pouco mais de 5 minutos para cada lado e será a última das mudanças, pelo menos por dois anos! Os episódios relacionados com a entrada da Leonor na escola, mostram bem a sua capacidade de adaptação e são também ilustrativos da seriedade com que os direitos dos cidadãos e a sua aplicação à actividade escolar, são tratados aqui. A integração da Madalena no infantário foi tão simples e imediata como a da Leonor na escola, mas o mesmo não pode dizer-se da facilidade em encontrar vaga! A escola da Leonor começou a 13 de Agosto, mas a Madalena só pôde começar a frequentar o infantário no dia 1 de Outubro. Não foi fácil nem para ela nem para nós, este desfasamento. A explicação para a demora tem a ver com o sistema de atribuição de vagas nos infantários. Uma vez mais o processo é elucidativo da forma sistemática como aqui tudo funciona. Os infantários são privados, mas a gestão do seu funcionamento obedece a regras definidas pela kommune (semelhante ao município em Portugal, mas com atributos muito mais vastos). A kommune define o número de vagas, o tipo de serviço prestado e estabelece um preço único em todos os infantários. Portanto, na prática, o aspecto mais importante a ter em conta é a localização, já que o serviço nunca é muito diferente. Ora a kommune garante lugar a todas as crianças, no máximo 2 meses após a sua entrada numa lista de espera para vagas. Portanto, habitualmente, os pais das crianças inscrevem-nas dois meses antes de terminar a licença de maternidade e tudo corre naturalmente. Ah, e à semelhança do táxi da Leonor, também neste caso há uma solução para minorar os problemas que possam surgir. Caso a kommune não possa oferecer uma vaga dentro do período previsto, paga um ordenado a um dos pais para que este fique em casa com a criança até que haja vaga num dos infantários das imediações.
É estranho e causa-me sempre alguma apreensão, constatar que já não penso tanto em Portugal! Quando aqui cheguei era inevitável, a qualquer momento dava comigo a comparar o que via de novo com o que conhecia de Portugal. Parecia-me que estava sempre latente um pensamento sobre Portugal. Como iria ser a nossa vida aqui, em comparação com a de Portugal, e o trabalho, como se iria desenvolver? E as pessoas que deixei em Portugal, como estariam? E a relação com as pessoas que aqui encontraria? Seria verdade que os Dinamarqueses são frios e antipáticos, em comparação com os Portugueses? E a nossa casa, seria maior, menor, melhor ou pior que aquela em que vivíamos? Nas lojas não conseguia deixar de converter para Euros os preços em Coroas, antes de me decidir ou não pela compra. Na rua pensava no clima daqui e no de Portugal, no aspecto das ruas de Copenhaga e no das de Lisboa – “Em Portugal ainda está tudo a jantar!” dizíamos uns para os outros quando estávamos a deitar-nos. De vez em quando apetecia-me ouvir as crónicas do Fernando Alves na TSF, pela internet. E ouvia!
Mas a pouco e pouco vou sendo sobressaltado pela ideia de que durante períodos cada vez mais longos do dia, não penso em Portugal. Encontro pessoas novas, vejo lugares diferentes, vou trabalhar, vou às compras, volto para casa e Portugal já não é a medida. Não, não é um sentimento confortável. É até um pouco assustador sentir como esta mescla de tempo e distância são impiedosos para com a memória mais fresca. Gostava de ter tudo aquilo que aqui me agrada, sempre bem presente, mas de somar a isso também as boas memórias que trago comigo de Portugal. Senti-las ainda à flor da pele, como quando aqui cheguei. Mas isso não é possível. Afinal a memória é apenas um perfume!
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Aconteceu...


Alguém dizia "espero que a manjedoura tenha ficado para ele". Eu prefiro pensar que alguma alma generosa o tirou da solidão do abandono...
"Não importa se os animais são incapazes ou não de pensar. O que importa é que eles são capazes de sofrer"
O meu respeitável gato
O T. chegou a nossa casa precisamente no dia de Reis e chamo-lhe, com alguma frequência, Rei Gordo (Godo…). À minha gata chamo princesinha louca por causa das suas diabruras hilariantes e deliciosas. Mas hoje a homenagem é para o meu gato, o Senhor T.
O T. tem inúmeras alcunhas, todas carinhosas, como, por exemplo, safardana, miudosco, badigas e gatatui (devido ao seu apetite insaciável e ao seu gosto pela cozinha…) e tenho por hábito perguntar-lhe (como se ele me respondesse…) quem é o gato mais lindo e mais fofo da linha de Sintra?...
Confesso que, até ao dia de Reis de 2007, não tinha nenhuma simpatia especial por gatos, mas depois do Senhor T. entrar na minha vida, passei a ser uma amante incondicional de gatos… Porquê? Talvez porque os gatos têm uma capacidade natural para manipular os donos e o T. percebeu que, naquela casa, era somente necessário conquistar a pessoa que menos afinidade sentia por ele, ou seja, eu… e com toda a sua “sabedoria”, não é que me “domesticou” completamente?
Só quem tem, ou já teve, gatos, pode compreender a paixão por estes felinos. Há lá coisa mais terna que o doce ronronar de um gato…
Para além desta foto, reproduzo, aqui, uma passagem de uma crónica do MEC (que li no Cavacos das Caldas) no jornal Público.
"...O que espanta num gato é a maneira como combina a neurose, a desconfiança e o medo - para não falar numa ausência total de sentido de humor - com o talento para procurar e apreciar o conforto e, sobretudo, a capacidade para dormir 20 em cada 24 horas, sem a ajuda de benzodiazepinas. O gato é neurótico, mas brinca. Brinca com seriedade, mas brinca. Tem acessos, muito curtos, de loucura, em que se embandeira em saltinhos oblíquos. Mas, acima de tudo, descobriu o sistema binário da existência. Que é: dormir faz fome. Comer faz sono. Acordo porque tenho fome. Adormeço porque comi. Nos intervalos, faço as necessidades. Podem ser secundárias (cagar, amar, mijar, brincar, ansiar), mas são verdadeiramente necessárias. Se não tem sono, é porque tem fome. Se não tem fome, é porque tem sono. Se não tem uma coisa ou outra, é porque tem de fazer as necessidades.
É ou não uma lição de vida? Sim; é. "
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Livros e Mar: eis o meu elemento! (18)
Na Inglaterra do século XII, Tom, um humilde pedreiro e mestre-de-obras, tem um sonho majestoso – construir uma imponente catedral, dotada de uma beleza sublime, digna de tocar os céus. E é na persecução desse sonho que com ele e a sua família vamos encontrando um colorido mosaico de personagens que se cruzam ao longo de gerações e cujos destinos se entrelaçam de formas misteriosas e surpreendentes, capazes de alterar o curso da história. Recheado de suspense, corrupção, ambição e romance, Os Pilares da Terra é decididamente a obra-prima de um autor que já vendeu 90 milhões de livros em todo o mundo.
domingo, 3 de janeiro de 2010
O resto é silêncio...
É a lei da vida, é natural que assim seja, mas pai é pai e a dor, ao perdê-lo, é inimaginável…
Entrei o ano muito mais “pobre”…
Quero, e tento, agarrar-me à ideia de que existe vida para além da morte, mas uma coisa é o que me dita o coração e outra, muito diferente, é o que me diz a razão.
Consolo-me com recordações… Uma delas foi lembrada pelo meu primo ZZ, ainda na noite de 24 de Dezembro, e que nos fez sorrir a todos.
Dizia ele que o tio Fernando foi a única pessoa que o levou à pastelaria “As Velhas”, nas Caldas da Rainha, e, sabendo como ele era guloso, lhe disse para comer todos os bolos que quisesse… O ZZ não se fez rogado e começou a “enfardar” bolos. Ao fim do décimo terceiro, sim, 13º bolo, um pastel de nata ainda morninho, começou com cólicas e, recorda ele, lá foi muito aflito com medo de não chegar a tempo a casa…
Este pequeno episódio foi recordado pelo meu primo porque o meu pai sempre gostou muito dos sobrinhos e eles sabem disso. Gostava tanto dos sobrinhos que, já bastante doente e na fase final da sua vida, continuava a perguntar por eles e pelas respectivas famílias. Sei, também, que os meus primos sempre tiveram um carinho especial pelo tio Fernando.
Consolo-me com recordações…com recordações felizes e menos felizes, boas e menos boas, ternas e menos ternas, às quais me prendo, no meio da minha mágoa.
Recordar é viver, o resto é silêncio…
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Memórias e Afectos (39)
Queria contar-vos uma história.
Essa foi uma lição que me ficou desde então, e que me tem dado muito jeito."
(Obrigada J. pela história e pelas tuas palavras. Ainda me recordo de alguns diálogos mais acesos que o meu pai fazia o favor de apaziguar... Obrigada mesmo!...)
domingo, 27 de dezembro de 2009
Morrer, dormir… talvez sonhar…
Era um dia igual a tantos outros e de repente… a vida muda.
Era um dia igual a tantos outros e nuns breves segundos… aquela dor só minha. Nada voltará a ser o que era.
Alguém disse que a morte é um acidente em cadeia de proporções incontroláveis e mesmo quando é previsível dói tanto como a que não é.
A morte do meu pai, doente há algum tempo, era previsível, já estávamos à espera dela. Mas não… nunca ninguém conta com a morte, nunca ninguém está preparado, e o maior problema da morte é a dor que provoca à sua volta…
Pai, partiste num dia chuvoso e triste, e triste me deixaste, entregue já às saudades do tempo que não volta mais e com o coração retalhado por este duro golpe…
Partiste num dia chuvoso e cinzento, deixando-me com lágrimas amargas de sofrimento e dor…
Perdoa-me não estar junto de ti quando partiste, perdoa-me não te ter dado a mão, perdoa-me ter-te deixado tão frágil, perdoa-me teres partido no meio de desconhecidos.
O dia chorou comigo a tua partida e, como disse a A, o mundo ficou mais vazio… e eu não mais serei igual. O mundo ficou mais vazio porque perdeu uma das pessoas mais especiais que eu conheci e orgulho-me por saber que sempre foste uma pessoa querida e estimada por todos aqueles que se cruzaram no teu longo caminho…
Recebi palavras amigas que pretendiam consolar-me na minha dor, mas um sofrimento desta natureza resiste a todas as palavras de conforto.
Deixaste comigo muito de ti e levaste contigo uma parte de mim… Morremos um pouco cada vez que perdemos um ente querido.
A noite que te levou para sempre foi também de céu escuro e carregado, tão escuro como o meu pensamento e tão carregado como o meu coração.
Uma estrela teimava em aparecer e brilhar por entre as nuvens escuras. Eu, poeticamente, pensei que só poderias ser tu a tentar dizer-me que continuarias a cuidar de mim e eu iria ter mais um anjinho da guarda, o melhor de todos…
Na hipótese de termos vindo ao mundo sob as carícias de uma estrela, excepcionalmente pródiga de venturas, talvez a estrela que vi fosse a que esteve presente no teu nascimento e que te veio buscar e acarinhar na tua viagem final.
A dor, brutal e profunda, aperta… a saudade aumenta…
Pai, resta-me a esperança, à qual nos agarramos sempre no meio do sofrimento, de voltar a ver-te e abraçar-te, talvez numa outra vida, num outro lugar…
Era um dia igual a tantos outros.Bastaram uns breves segundos para a minha vida mudar e ficar uma dor só minha…de repente, assim, de repente… num dia chuvoso e triste…
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
O mundo ficou mais vazio...
sábado, 19 de dezembro de 2009
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Prendas com Laços...de Amizade
Recebi testemunhos de carinho e apreço que, embora não me surpreendam, me deixaram comovida e com vontade de gritar e tornar públicas estas manifestações de amizade verdadeira e incondicional… Obrigada a todos. Esta quadra tem mais significado porque continuam a existir pessoas lindas como todos vós…
Publique-se!
A amizade é um bem precioso e o mais valioso que cada um tem para dar. Por isso, já nos dás muito ao nos considerares como parte integrante do teu grupo de amigos.
A vantagem de quando se está entre amigos, é que não é preciso disfarçar quando estamos em baixo. Só o facto de estares presente, já estás a ser uma boa companhia.
E agora, fim da questão. Lá te espero no Oeste.
Não aceitamos este não.
Falando mais a sério, combinámos que em vez de estarmos a dar-te uma prenda, oferecemos-te o jantar (filhas incluídas) e temos a vossa companhia, que é muito mais importante que uma prenda.
(É costume dizer-se que não se acredita em bruxas mas que as há, há… e eu posso confirmá-lo! Há uma que me persegue há anos e que tem o condão de me fazer mais feliz…obrigada T.)
O que interessa de facto é o estamos todos juntos e não o que damos uns aos outros em termos materiais, isso não interessa nada.
Eu sei que és “uma rapariga de convicções fortes” (para não te chamar teimosa) e consigo perceber o que te está a passar pela “alma”, mas pedia-te encarecidamente que reconsiderasses e que viesses ao jantar.
A tua presença e a das tuas filhotas é o nosso presente.
Na definição de amizade está também nunca desistir...
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Tornar (volver) a Barcelona (4)
12 de Setembro – 1ª parte
A manhã do segundo dia começou lindamente, com um pequeno-almoço magistral…
A oferta era tanta que não sabia o que escolher, acabando por optar comer de quase tudo um pouco, pensando na sorte que tinha em não ter esta variedade todos os dias da minha vida. Se eu comesse assim diariamente, para além de passar de forte a gorda, num ápice, o meu orçamento familiar mensal não chegava para quinze dias…
Pãezinhos, croissants, manteiga, queijos, fiambre, presunto, doces, frutas variadas descascadas e cortadas, donuts, fatias de bolo, leite, sumo de laranja, iogurtes e para rematar un café solo…
A minha atracção por Barcelona já se tinha revelado na véspera, no primeiro contacto com a cidade. Este segundo “rendez-vous” serviria para fortalecer a minha afinidade, já visível no primeiro encontro, e para me render irreversivelmente aos seus marcantes, notáveis e arrebatadores encantos... (é pá…esta frase saiu-me mesmo bem!).
Munida do mapa e do guia, e depois de um périplo pela recepção do hotel, para um desvio de rebuçados, saímos a porta rotativa para o nosso encontro marcado com a cidade…
O programa para este dia de sábado estava mais ou menos esquematizado na minha cabeça e os nossos alvos eram os distritos de L’Eixample (expansão, alargamento) e Gracià, o primeiro com muitos edifícios resultantes da difusão do Modernismo no início do século XX.
Como Barcelona é praticamente plana, é possível encontrar, em vários locais, bicicletas para alugar, podendo juntar o útil ao agradável, pedalando enquanto se desfruta plenamente de tudo o que a cidade tem para nos oferecer. Evidentemente que não optámos por pedalar, optámos pela linha 3 do metro que nos levou de Sants Estació até à estação de Lesseps, que tem uma saída para a praça com o mesmo nome.
A nossa primeira paragem, nesta esplêndida manhã era o Parque Güell (em catalão Parc Güell, embora o seu nome original fosse Park Güell).
Quando estive em Barcelona, há um ror de anos atrás, não tinha maturidade nem conhecimentos para apreciar os trabalhos de Antoni Gaudí nem tão-pouco deixar-me envolver pelas formas perfeitas que criou…
Se há mais de três décadas me falassem de Gaudí, a única menção que poderia fazer, tendo em conta a minha magra cultura geral, seria “foi um famoso arquitecto do país vizinho”.
Foram necessários alguns anos para, numa das minhas excursões pelas enciclopédias “caseiras”, tomar contacto com o arquitecto catalão e a genialidade das suas construções.
Dizem que de médico e de louco todos nós temos um pouco. Não sei se Gaudí teve a sua quota-parte de médico, mas teve muito de louco, e se pensarmos bem, a loucura e a genialidade andam, quase sempre, de mãos dadas. Abençoada loucura, a deste arquitecto modernista que criou obras sublimes de uma beleza ímpar, intemporal, imutável e imortal…
Ao portão do parque, a famosa salamandra (há quem lhe chame lagarto e há quem lhe chame dragão) de Gaudí, em “carne e osso”, esperava-nos para umas daquelas fotos pacóvias em que fazemos umas figurinhas muito tristes, mas mesmo sabendo isso continuamos a fazer figurinhas tristes… nós fizemos…todos, sem excepção…Aqui, deixo apenas a foto da salamandra porque é a única que ainda tem lata para dar a cara…
Gaudí e Güell imaginaram um projecto semelhante às cidades-jardim inglesas (daí o nome original Park Güell), com 60 chalés e uma vista panorâmica sobre toda a cidade de Barcelona. Güell entregou este projecto a Gaudí, confiando plenamente nas suas ideias e decisões artísticas (aqui ficam os meus agradecimentos a Güell).
O muro que envolve todo o recinto foi construído com pedra rústica e podem ver-se uns “medalhões” com as inscrições “Park” e “Güell”.

O projecto ambicioso, mas destinado ao insucesso, acabou por falhar. Não apareceram compradores para os terrenos visto que a urbanização se encontrava longe do centro da cidade. No entanto, as obras continuaram e com a morte de Güell em 1918, os herdeiros venderam os terrenos ao município da cidade, tendo sido inaugurado como parque público em 1922.
Foi assim que Barcelona acabou por ganhar um magnífico jardim e o encanto do lugar prevalecerá para lá dos tempos…
Gaudí situou a entrada principal na parte mais baixa da montanha, na Rua Olot, e o acesso ao parque faz-se por um portão lindíssimo de ferro forjado, representando folhas de palmito.
A sensação que tive, assim que transpusemos o portão, foi a de que estava a entrar num universo mágico, num daqueles mundos de faz de conta, como os que antigamente povoavam o meu imaginário…Nos dois lados do portão da entrada situam-se dois pavilhões. Construídos também de pedra rústica e com várias aplicações de cerâmica, uma das técnicas preferidas de Gaudí, conhecida por trencadís, fizeram-me imediatamente lembrar a casinha de chocolate do conto infantil Hänsel e Gretel.
Curiosamente, parece que esses pavilhões evocam mesmo a casa do conto, pois em 1901, ano da sua construção, era representada, no Liceu, a ópera do compositor alemão Engelbert Humperdinck, com o mesmo nome.O pavilhão mais pequeno, destinado à administração da excêntrica urbanização, tem terraço e uma torre com uma cruz de quatro braços, típica de Gaudí. O pavilhão maior, destinado à portaria, termina com uma cúpula em forma de cogumelo.
Deste hall de entrada parte uma grandiosa escadaria, disposta simetricamente, que fica entre muros com umas estruturas salientes que parecem ameias. Na zona central da escadaria existem três fontes, cada uma delas com a sua simbologia, mas a mais conhecida é, sem dúvida, a da salamandra, que se converteu no emblema do parque.Antes de subirmos até à Sala Hipóstila, existe um patamar onde se situa um banco em forma de odeão, com a particularidade de ter Sol durante o Inverno e sombra durante o Verão… Só poderia ter saído da livre criatividade de Gaudí, um mestre na arte de produzir grandes efeitos, tudo pensado ao pormenor.
No cimo da escadaria situa-se a Sala Hipóstila ou Sala das Cem Colunas. As colunas exteriores estão ligeiramente inclinadas para conseguir um melhor equilíbrio estrutural. Esta sala tem, na verdade, 86 colunas e foi desenhada para funcionar como mercado do bairro residencial. Actualmente é utilizada por alguns músicos por causa da acústica que oferece. As colunas têm 6 metros de altura e 1,20 metros de diâmetro. O tecto é revestido de trencadís branco e em alguns espaços existem umas rosetas, revestidas também com trencadís, que representam as quatro estações do ano.
Verdadeiramente fascinante…


O último lance da escadaria leva-nos à Gran Plaça Circular, um espaço aberto com 3000 metros quadrados, que é o ponto central do Parc Güell e foi executada por Josep Jujol, um dos principais colaboradores de Gaudí e o que tinha mais imaginação criativa.
Segundo o plano original, a praça devia ser um teatro grego, adequado para reuniões comunitárias e para celebração de eventos culturais e religiosos.
Na parte exterior contém um friso coberto de gárgulas para desaguar a chuva, bem como formas de gotas de água.

Fiquei um pouco surpreendida por esta praça não ter pavimento. Só mais tarde vim a saber o motivo e pareceu-me de um discernimento vanguardista. A água que a praça recolhe, proveniente da chuva, é drenada e canalizada pelas colunas (da Sala Hipóstila) que a suportam, e é acumulada num depósito subterrâneo de 1200 m3, sendo posteriormente utilizada para regar o parque. Se o depósito ultrapassar um determinado limite, a água excedente é expelida pela salamandra… Isto é de uma clarividência espantosa.
A Gran Plaça Circular é simplesmente colossal e daqui temos uma vista espantosa e privilegiada sobre a cidade.

Esta praça apresenta um banco com uma forma ondulante com cerca de 152 metros a toda a sua volta, repleto, igualmente, com a famosa técnica preferida do arquitecto catalão, os fantásticos mosaicos coloridos, o trencadís. Sentámo-nos na “serpente” ondulante a admirar a agitação da praça e o belíssimo panorama que dali se avista. Estive sentada no que dizem ser o banco mais comprido do mundo. Não sei até que ponto esta afirmação é verdadeira, nem me vou dar ao trabalho de confirmá-la porque o que realmente importa é que este banco, incontestavelmente, é lindíssimo, é harmonioso, é monumental, é impressionante, é delirante, é Gaudí… e como o próprio dizia "a linha recta é do homem, a curva pertence a Deus"…
Continuámos o nosso passeio pelo parque. Gaudí construiu uma série de viadutos largos que seriam utilizados pelas carruagens e por baixo deles uns caminhos para serem percorridos a pé. Destes caminhos destaca-se o Caminho do Rosário, onde se encontra a Casa Museu Gaudí. Esta casa, desenhada por Francesc Berenguer, foi construída como casa modelo da urbanização, sendo depois adquirida por Gaudí quando o projecto fracassou, passando a ser a sua residência durante alguns anos. A casa é graciosa mas não é necessário ser perito em arquitectura para, à primeira vista, sabermos que não pertence à criatividade encantadora de Gaudí. Linhas rectas e planas não são, de facto, o seu estilo pessoal…

"Gaudí trabalhou neste parque entre 1900 e 1914 e pode dizer-se que foi com ele que entrou naquilo que os especialistas declaram ser o seu período de maturidade, numa altura em que deixaram de o chamar modernista, para lhe colocar o epíteto de surrealista."
Não tenho conhecimentos para assegurar se é modernista, surrealista ou se é um misto dos dois movimentos artísticos, mas penso ter sensibilidade para apreciar a harmonia de formas e cores visíveis nas obras de Gaudí…
Saímos do Park Güell. Foi com algum pesar que me afastei do sublime parque, que um dia foi o sonho marcante e extraordinário de dois homens…







